O ar faltou. Meu corpo reagiu antes da razão. Senti um aperto seco no peito, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro de mim. E ali, naquele escuro voluntário, eu entendi: era medo. Um medo cru, primitivo. O horror de não abrir os olhos nunca mais.
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O ar faltou. Meu corpo reagiu antes da razão. Senti um aperto seco no peito, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro de mim. E ali, naquele escuro voluntário, eu entendi: era medo. Um medo cru, primitivo. O horror de não abrir os olhos nunca mais.
18 outubro 2010
De olhos vendados
Postado por -
Renata F.
E se eu fosse cega?
Nunca me imaginei sem nada. Não desse jeito. Perder tudo de uma vez — a lucidez, o mundo, a forma como as coisas se revelam diante de mim. Perder o sol, o mar, as estrelas. E os sorrisos… ah, os sorrisos nos rostos que eu reconheço antes mesmo de pensar. Perdê-los também. E então, desaparecer.
Fechei os olhos. Foi um gesto simples, mas o mundo se desfez inteiro. Tentei lembrar de tudo o que eu deixaria para trás. Coisas que, até segundos antes, pareciam pequenas — sem importância. De repente, doeram. Vieram como saudade antecipada, como despedida sem aviso. Curiosamente, as mais essenciais passaram despercebidas.
O ar faltou. Meu corpo reagiu antes da razão. Senti um aperto seco no peito, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro de mim. E ali, naquele escuro voluntário, eu entendi: era medo. Um medo cru, primitivo. O horror de não abrir os olhos nunca mais.
Abri-os imediatamente. A luz voltou, mas não trouxe alívio completo. Havia um resquício — uma sombra interna, persistente. Fiquei com medo de fechar os olhos de novo. Como se, na próxima vez, o escuro não fosse escolha.
E, no entanto, mesmo de olhos abertos, eu ainda perco. Há momentos em que a visão falha. Não por ausência de luz, mas por excesso de tudo. Fragilidade, angústia, cansaço. Primeiro, tudo fica turvo, como se o mundo estivesse se desfazendo nas bordas. Depois, escurece. Um preto denso, silencioso.
Resta o corpo. Resta o vento. Resta eu, tentando me agarrar a algo que não escapa pelos olhos. É nesses instantes que eu percebo o valor daquilo que sempre esteve ali — discreto, constante, quase invisível de tão presente. Ver. Simplesmente ver.
Mas essa consciência não dura. Em algum ponto, eu esqueço de novo. Volto à distração, à negligência, à falsa certeza de permanência. E então tudo recomeça como um ciclo. Como um aviso. Me dou conta de quão frágil a realidade sempre foi.
“Acho que perdi a sanidade; tenho saudade dos contos de fada...”
Talvez porque neles, ao menos, quando a escuridão chega… alguém sempre acende a luz.
"Acho que perdi a sanidade. Tenho saudade dos contos de fada..."
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1 recados:
uma exímia escritora !!!
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