às
17:34
18 maio 2026
Contraste
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Renata F.
Hoje, o sol tingiu os céus e as paredes de amarelo no fim do dia. Apesar disso, as nuvens insistem em cobrir o céu de cinza. Não dá para saber se o mundo está sorrindo ou pronto para chorar. E, no fundo, há um alívio secreto em perceber que a natureza, em toda a sua imensidão, também tem as suas crises de identidade. O céu de hoje é um reflexo de nós: essa luz morna que teima em clarear os dias, mesmo quando o peso lá fora ameaça desabar. No fim, que venha a chuva ou que fique o sol. O que importa é que o mundo, ainda que por um instante, conheceu o amarelo, antes da chuva começar a cair.
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16:25
Detalhes
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Renata F.
Desde sempre, achava que a gente precisava ter tudo resolvido para poder seguir em frente. Como se felicidade fosse destino e não caminho. Mas a verdade é que quase ninguém sabe exatamente o que está fazendo. Tem gente que parece forte e também desmorona no banho. Tem gente que sorri em foto e chora antes de dormir. Todo mundo carrega alguma bagunça escondida atrás do “tá tudo bem”.
Crescer é estranho porque, aos poucos, a gente percebe que a vida não acontece como imaginávamos quando éramos crianças. Os planos mudam, as pessoas mudam, nós mudamos. E dói perceber isso. Dói entender que algumas coisas acabam, que certas versões de nós ficam pelo caminho e que nem sempre teremos respostas para tudo.
Mas existe beleza nisso também. Existe beleza em recomeçar mesmo cansado. Em continuar acreditando, mesmo depois de tantas decepções. Em encontrar pequenos motivos para ficar — uma música favorita, uma conversa sincera, o cheiro de chuva, alguém que lembra de você sem motivo nenhum. A vida raramente é perfeita, mas ela tem momentos que fazem o caos valer a pena. E talvez seja isso que nos salva: os detalhes. As pequenas coisas que insistem em florescer mesmo dentro da confusão.
No fim, viver não é sobre estar feliz o tempo inteiro. É sobre continuar sentindo. Continuar tentando. Continuar sendo, mesmo quando o coração ainda está aprendendo a cicatrizar.
às
14:39
10 maio 2026
Versões de mim
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Renata F.
Existe uma verdade silenciosa sobre ser humano: ninguém conhece a nossa versão inteira. Somos feitos de camadas, e cada pessoa conhece apenas algumas delas. Há várias versões de nós que moram apenas nos olhos dos outros.
Há uma versão nossa que mora na lembrança da mãe — talvez mais frágil, talvez eternamente criança. Existe aquela que os amigos conhecem, feita de risadas altas, histórias repetidas e segredos divididos no meio da madrugada; ou aquela que gosta de ler livros, dançar e viajar, todos na mesma intensidade. Há também a versão do trabalho, mais firme, mais organizada, talvez mais cansada do que demonstra. Para alguém, somos abrigo. Para outro, saudade. Para alguns, apenas uma lembrança breve atravessando um capítulo qualquer da vida.
Tem quem conheça a nossa coragem, mas nunca tenha visto o medo que a antecede. Tem quem conheça nosso silêncio sem imaginar o barulho que existe dentro da gente. Alguns conheceram nossa versão mais leve, antes das dores. Outros chegaram justamente depois dos escombros e aprenderam a amar a pessoa que precisou se reconstruir.
É estranho pensar nisso: em quantas pessoas carregam um “eu” diferente dentro delas. Na memória de alguém, talvez sejamos aquela conversa que salvou um dia ruim. Em outra, talvez sejamos uma despedida mal explicada. Para alguns, fomos amor. Para outros, aprendizado. E, às vezes, sem perceber, nos tornamos vilões em histórias nas quais apenas tentávamos sobreviver.
A verdade é que ninguém nos vê por inteiro — e talvez nós mesmos também não. Porque estamos sempre mudando. A pessoa que fomos há cinco anos já não mora exatamente aqui. Ainda existem pedaços, hábitos, cicatrizes, mas algo mudou no jeito de olhar o mundo. Somos muitas versões coexistindo: a que mostramos, a que escondemos, a que os outros inventam sobre nós e aquela rara, silenciosa e quase secreta, que só aparece quando estamos sozinhos.
Talvez amadurecer seja fazer as pazes com isso. Entender que nunca teremos controle sobre quem somos nos olhos dos outros. Cada pessoa nos leva de um jeito, moldados pelo amor, pela ausência, pela convivência ou pela dor. No fim, talvez a pergunta não seja quantas versões de nós existem, mas qual delas somos quando ninguém está realmente olhando, porque, entre todas as versões que vivem por aí, existe uma que merece mais cuidado: a que temos diante do espelho.
às
17:17
09 maio 2026
Desalento
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Renata F.
“— Tá tudo bem?
— Tá sim.”
A resposta é automática. Sai rápida, quase ensaiada, dessas que a gente aprende a dizer para evitar perguntas difíceis. Porque às vezes explicar o que dói cansa mais do que fingir que não dói.
Pode significar não quero falar sobre isso agora. Pode significar nem eu sei o que estou sentindo. Ou aquele silencioso e pesado não tá, mas vai passar... e eu sei que você não se importa e nem quer ouvir de verdade.
Há dias em que a gente se acostuma tanto a carregar o mundo nas costas que até esquece como pedir ajuda. Sorri no horário certo, responde no automático, continua funcionando — como quem confunde sobrevivência com força e ninguém percebe. Porque quem está afundando nem sempre grita. Às vezes, faz café, responde mensagens, trabalha, ri de alguma piada e ainda pergunta se os outros estão bem. Talvez o maior cansaço não seja a tristeza em si, mas o esforço de parecer inteiro quando se está desmoronando aos poucos.
Então, da próxima vez que alguém perguntar “tá tudo bem?”, eu vou continuar respondendo que sim, porque sei não vai adiantar dizer: “não muito hoje”. Porque sei que não quer ouvir de verdade, porque sei que vai falar "é besteira, bola pra frente". Ainda continuo procurando alguém que me mostre que existe alguém que fique, mesmo depois de saber todas as verdades.
às
18:34
As pessoas passam correndo todos os dias sem perceber muita coisa. Compram café, reclamam do calor, atendem ligações, olham relógios. Andam apressadas, fazendo tudo quase que no automático. A gente também não vê as cores escapando delas o tempo inteiro, mesmo quando estão lá: o verde tímido na esperança do rapaz desempregado que, ainda assim, passava perfumado; o rosa da menina que sonhava ser bailarina e treinava passos discretos enquanto esperava o ônibus; o laranja quente da mulher que ria alto depois de semanas difíceis, como se estivesse reaprendendo a existir.
06 maio 2026
As cores da vida
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Renata F.
Alguém já parou para contar as cores do nosso dia-a-dia? Elas moram escondidas dentro das coisas comuns e ninguém percebe: o amarelo vive no vapor do café recém passado, escorrendo preguiçoso pela cozinha às seis da manhã, contrastando com um marrom intenso demais para essa hora do dia; o azul se espreguiça nas olheiras cansadas de quem acorda cedo demais, misturado ao céu ainda frio; o vermelho aparece apressado nos semáforos, nos batons borrados depois do almoço, das flores esquecidas nos canteiros das cidades.
Havia também o cinza — talvez a cor mais presente de todas. Mora nos ônibus lotados, nas segundas-feiras, nos elevadores silenciosos, nos prédios sóbrios e nos pensamentos que ninguém dizia em voz alta. Mas o cinza tinha um segredo: ele só existia para fazer as outras cores respirarem melhor.
As pessoas passam correndo todos os dias sem perceber muita coisa. Compram café, reclamam do calor, atendem ligações, olham relógios. Andam apressadas, fazendo tudo quase que no automático. A gente também não vê as cores escapando delas o tempo inteiro, mesmo quando estão lá: o verde tímido na esperança do rapaz desempregado que, ainda assim, passava perfumado; o rosa da menina que sonhava ser bailarina e treinava passos discretos enquanto esperava o ônibus; o laranja quente da mulher que ria alto depois de semanas difíceis, como se estivesse reaprendendo a existir.
Talvez por isso, no fim da tarde, o roxo do pôr do sol lembra, mesmo aos mais distraídos, que até o fim de um dia pode carregar alguma beleza. O mundo tende a ficar cinza depressa demais e algo precisa lembrar as pessoas de que ele não nasceu assim. As cores, satisfeitas, continuarão vivendo onde sempre viveram: escondidas nos detalhes que quase ninguém nota — esperando apenas alguém disposto a olhar devagar ou a pintar da maneira certa, antes que a cor desbote.
às
10:06
02 maio 2026
Raízes
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Renata F.
Ela tinha um nome simples, desses que passam despercebidos, mas dentro dela existiam mil outras meninas — cada uma vivendo uma vida diferente da que lhe coube. Entre o terraço e quintal de onde morava, com rachaduras no chão e ausências dentro de casa, ela inventava mundos onde não encontrava morada. Ali, não faltava nada.
Em um dia, era bailarina, girando descalça como se o vento fosse música. No outro, era médica, salvando vidas com mãos pequenas e sérias. Já quis ser de tudo um pouco — querendo escolher seus próprios caminhos. E, quando o silêncio da casa ficava pesado demais, ela fingia também ter uma família que ria alto, que a abraçava sem pressa, que ouvia o que ela tinha a dizer.
Ninguém ensinou aquilo a ela. Era instinto — um jeito de sobreviver sem endurecer. A realidade, no entanto, sempre a encontrava no fim do dia. O jantar simples, as paredes caladas e as ausências que não deveriam estar ali. E, por um instante, ela sentia tudo, mas nunca por tempo suficiente para deixar escapar. Para ela, fingir não era mentira — era esperança em forma de brincadeira. E talvez por isso nunca tenha gostado de brincar de boneca, como as outras meninas. Seria irrealista demais.
O tempo passou, como sempre passa, e a menina cresceu. As fantasias foram ficando mais silenciosas, mais escondidas, mas nunca foram embora. Ainda viviam nela, agora transformadas em algo diferente: vontade. Vontade de ser, de ter, de construir tudo aquilo que um dia ela só pôde imaginar. E, talvez, o mais bonito seja isso: aquela menina que brincava de ter outras vidas não estava fugindo da sua — estava, sem saber, ensaiando futuros.
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