24 abril 2011

Razão de viver

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"Num piscar de olhos, perdi tudo: o dia, o sol, o vento; a lua, as estrelas, o mar. Perdi o amanhecer e, com ele, a chance de recomeçar. Perdi tudo — menos a própria perda, que ficou. Perdi o teu olhar e, nele, a última centelha de razão."

A coragem de ser feliz

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Pelo pôr do sol no fim da tarde; pelo mar — calmo ou revolto —; pelas estrelas que cintilam ao lado da lua no anoitecer e pela esperança insistente de um dia novo e melhor. Por um abraço que aquece a alma, por um gesto de afeto de amigo ou de irmão, por um sorriso verdadeiro, pela simples alegria de estar viva.

Pelo estranho e belo prazer de sentir: de se apegar, de ter ciúmes, de chorar, de cuidar do que se ama. Por cada sonho luminoso, por cada pensamento que insiste, por cada ideal que nasce em silêncio. Por estender a mão, por perceber o outro, por sentir sua presença ao lado — sem medo de ser feliz.

Sorrio por tudo isso e por tanto mais. E penso: se sorríssemos sem medo, sem vergonha, sem o peso das preocupações, talvez tudo fosse mais leve. Diz-me — é perigoso, afinal, simplesmente ser feliz?

Ironia do destino

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Curioso é aprender a rir da própria vida — só da sua. Rir quando cai, mas também quando (e enquanto) caminha; quando dói e também quando é bom; quando se perde, mas, principalmente, quando se ganha; rir, não por leveza, mas por sobrevivência. É um riso que nasce no meio dos escombros: encontrar algum sentido enquanto tudo parece ruir, sorrir mesmo estando por baixo. Chorar, sim — e até se arrepender —, mas sem jamais esquecer da própria história, dessa vida que, por vezes, parece escapar entre os dedos. Houve dias em que você sonhou estar aqui — e agora chegou, mesmo com os obstáculos. Vão dizer que não é nada, perto de outras pessoas por aí. Mas eu digo: é tudo. É o coração insistindo — teimoso — em continuar tentando. É, no fundo, amor.

A beleza de existir

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As bolhas de sabão voam — e tornam a voar — atrás do vento, como se soubessem exatamente onde mora a felicidade. Giram, dançam, refletem o mundo em suas superfícies frágeis, levando consigo cores que só existem por um instante. Leves, livres, autênticas: nenhuma igual à outra, nenhuma feita para durar. E ainda assim, completas em sua breve existência.

São apenas água e sabão — e, ainda assim, carregam a delicadeza de um pedaço de nuvem, a transparência de algo que não precisa ser mais do que é.

Talvez a vida devesse ser assim: simples, passageira, bonita no agora — sem o peso de permanecer, apenas a coragem de existir.

Orações

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Chorar não resolve, falar pouco é uma virtude, aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoísmo, e o que não mata com certeza fortalece. Às vezes mudar é preciso, nem tudo vai ser como você quer, a vida continua. Pra qualquer escolha se segue alguma conseqüência, vontades efêmeras não valem a pena; quem faz uma vez não faz duas necessariamente, mas quem faz dez, com certeza faz onze. Perdoar é nobre, esquecer é quase impossível. Nem todo mundo é tão legal assim, e de perto ninguém é normal. Quem te merece não te faz chorar, quem gosta cuida, o que está no passado tem motivos para não fazer parte do seu presente. Não é preciso perder pra aprender a dar valor e os amigos ainda se contam nos dedos. Aos poucos você percebe o que vale a pena, o que se deve guardar pro resto da vida, e o que nunca deveria ter entrado nela. Não tem como esconder a verdade, nem tem como enterrar o passado; o tempo sempre vai ser o melhor remédio, mas seus resultados nem sempre são imediatos. Não fique preocupado, você nunca sabe quem está se apaixonando pelo seu sorriso.

(Charles Chaplin)

Angústia

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Jamais me perguntarei por que esse sorriso irônico insiste em nascer nos meus lábios, enquanto por dentro me desfaço à sombra de um pensamento teu — tentarei vestir leveza para não ser notada.

23 abril 2011

Êxtase

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Foste tu, noite breve, que abraçaste minha alma como se fosse inteira — e, no mesmo gesto, a partiste em fragmentos de um todo que já não reconheço. Tuas estrelas roçavam meu rosto cansado, esse rosto que se rende aos sentimentos de um interior vazio, ainda assim pulsante.

Os ventos que por aqui passam me levam — e me perdem — com uma lucidez estranha, um torpor profundo e incoerente, mas firme em seu brincar constante. Ah, luar peregrino, que me encanta e me inquieta, doce ilusão suspensa no céu!

Eis os mesmos elementos: a noite, as estrelas, os ventos, a lua — todos reunidos, atentos, como se esta noite soubesse de tudo. Fazem-se presentes no instante em que teu olhar se aprofunda, carregado de um encanto que toca meus lábios em silêncio. E, ainda assim, não me ensinam como sentir-te — apenas me deixam à deriva, entre o fascínio e o desconhecido.

17 abril 2011

Inquieta

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Há uma parte de mim que não se cala. Grita com uma voz frágil — e não suporta o próprio silêncio. Posso me manter quieta, sufocada, sem conseguir compreender cada fragmento do que sou. Mas para quê? Que valor tem essa agonia?

Carrego em mim um pouco de cada amor, de cada sorriso — e também de cada lágrima. Ainda assim, não sei por onde andei. Não sei por onde me libertar, nem onde levantar quando cair. Há em mim um pedaço que não entende; outro, que implora por liberdade. E, agora, exausta, já nem sei o que em mim ainda merece chorar.

10 abril 2011

Dicionário

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A primeira letra do alfabeto é também a primeira letra da palavra
amor e se acha importantíssima por isso!
Com A se escreve "arrependimento" que é uma inútil vontade de pedir ao tempo para voltar atrás e com A se dá o tipo de tchau mais triste que existe: "adeus"... Ah, é com A que se faz
"abracadabra", palavra que se diz capaz de transformar sapo em príncipe e vice-versa...
Com B se diz "belo" - que é tudo que faz os olhos pensarem ser coração; e se dá a "bênção", um sim que pretende dar sorte.
Com C, "calendário", que é onde moram os dias e o "carnaval", esta oportunidade praticamente obrigatória de ser feliz com data marcada. "Civilizado" é quem já aprendeu a cantar 'parabéns pra você' e sabe o que é "contrato": "você isso, eu aquilo, com
assinatura embaixo".
Com D , se chega à "dedução", o caminho entre o "se" e o "então"... Com D começa "defeito", que é cada pedacinho que falta para se chegar à perfeição e se pede "desculpa", uma
palavra que pretende ser beijo.
E tem o E de "efêmero", quando o eterno passa logo; de "escuridão", que é o resto da noite, se alguém recortar as estrelas; e "emoção", um tango que ainda não foi feito. E tem também "eba!", uma forma de agradecimento muito utilizada por quem ganhou um pirulito, por exemplo...
F é para "fantasia", qualquer tipo de "já pensou se fosse  assim?"; "fábula", uma história que poderia ter acontecido de verdade, se a verdade fosse um pouco mais maluca; e "fé", que é toda certeza que dispensa provas.
A sétima letra do alfabeto é G, que fica irritadíssima quando a confundem com o J. G, de "grade", que serve para prender todo mundo - uns dentro, outros fora; G de "goleiro", alguém em quem se pode botar a culpa do gol; G de "gente": carne, osso, alma e
sentimento, tudo isso ao mesmo tempo.
Depois vem o H de "história": quando todas as palavras do dicionário ficam à disposição de quem quiser contar qualquer coisa que tenha acontecido ou sido inventada.
O I de "idade", aquilo que você tem certeza que vai ganhar de aniversário, queira ou não queira.
J de "janela!, por onde entra tudo que é lá fora e de "jasmim", que tem a sorte de ser flor e ainda tem a graça de se chamar assim.
L de "lá", onde a gente fica pensando se está melhor ou pior do que aqui; de "lágrima", sumo que sai pelos olhos quando se espreme o coração, e de "loucura", coisa que quem não tem só pode ser completamente louco.
M de "madrugada", quando vivem os sonhos...
N de "noiva", moça que geralmente usa branco por fora e vermelho por dentro.
O de "óbvio", não precisa explicar...
P de "pecado", algo que os homens inventaram e então inventaram que foi Deus que inventou.
Q, tudo que tem um não sei quê de não sei quê.
E R, de "rebolar", o que se tem que fazer pra chegar lá.
S é de "sagrado", tudo o que combina com uma cantata de Bach; de "segredo", aquilo que você está louco pra contar; de "sexo": quando o beijo é maior que a boca.
T é de "talvez", resposta pior que 'não', uma vez que ainda deixa, meio bamba, uma esperança... de "tanto", um muito que até ficou tonto... de "testemunha": quem por sorte ou por azar, não estava em outro lugar.
U de "ui", um ài" que ainda é arrepio; de "último", que anuncia o começo de outra coisa; e de "único": tudo que, pela facilidade de virar nenhum, pede cuidado.
Vem o V, de "vazio", um termo injusto com a palavra nada; de "volúvel", uma pessoa que ora quer o que quer, ora quer o que querem que ela queira.
E chegamos ao X, uma incógnita... X de "xingamento", que é uma palavra ou frase destinada a acabar com a alegria de alguém; e de "xô", única palavra do dicionário das aves traduzida para o português.
Z é a última letra do alfabeto, que alcançou a glória quando foi usada pelo Zorro... Z de "zaga", algo que serve para o goleiro não se sentir o único culpado; de "zebra", quando você esperava
liso e veio listrado; e de "zíper", fecho que precisa de um bom motivo pra ser aberto; e de "zureta", que é como fica a cabeça da gente ao final de um dicionário inteiro.
(Pedro Bial)

08 abril 2011

Fragmentos de mim

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As minhas mentiras ocupavam cada canto da pouca sanidade que ainda me restava. Já não eram sombras: eu as via, nítidas, moldando meus instintos. Perdia pedaços pelo caminho — fragmentos de um passado não tão distante — e reconhecia, em cada um deles, a força que me corroía, sem um vestígio de remorso.

A vontade de me expor por inteiro era mínima — tão escassa quanto a de sorrir. As mentiras voltavam sem controle, e tudo se tornava turvo sob o peso das lágrimas que insistiam em cair. Diante de tudo, faltava-me uma saída, uma fonte que me devolvesse a humanidade: sem alma perdida, sem alma empobrecida, sem alma renegada. Meus sentimentos, em frangalhos, clamavam por um sentido que não vinha, enquanto uma escuridão densa e mórbida se espalhava pelos meus olhos e pelo meu peito.

Talvez eu pedisse apenas uma voz, um sopro de lucidez. Talvez sorrir fosse a única força capaz de me manter de pé. Ou talvez fosse apenas mais uma mentira — a necessária — para continuar existindo num mundo onde se vive por imposição, e não por escolha.

02 abril 2011

Memórias de alguém que não viveu

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"No universo das imperfeições — onde acabei por me reconhecer —, neste mundo que insisto em chamar de meu, havia em mim um único defeito, discreto a ponto de passar despercebido: o passado. Vi pouco do muito. As coisas aconteciam, e eu mal as tocava. Cada dia era apenas um dia.

Quando enfim me ocorreu que a vida também se encerra, percebi o vazio: não havia história a contar. Corri pouco, sorri pouco, chorei pouco — tampouco sofri por amor. Tentei reconstruir o caminho que me trouxe até aqui, mas não encontrei lembranças capazes de explicá-lo. O gosto de viver nunca me visitou; os sentimentos não aprenderam a fluir. Com o tempo, acostumei-me a esse andamento estranho, quase perturbador: tudo divagava, recuava, desacelerava. Houve coisas que deixei de tentar compreender.

Perdi muito do que era único — pequenas possibilidades que fariam grande diferença. “Arrependimento” já me parece uma palavra insuficiente; o que sinto é mais vasto, mais áspero — algo que me atravessa por inteiro. Esse traço, antes discreto, tornou-se persistente. E sei que permanecerá, mesmo depois do fim dos meus dias — esses que agora me resta apenas aguardar.”
 

(Re)inventando © 2010

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