06 maio 2026

As cores da vida

Alguém já parou para contar as cores do nosso dia-a-dia? Elas moram escondidas dentro das coisas comuns e ninguém percebe: o amarelo vive no vapor do café recém passado, escorrendo preguiçoso pela cozinha às seis da manhã, contrastando com um marrom intenso demais para essa hora do dia; o azul se espreguiça nas olheiras cansadas de quem acorda cedo demais, misturado ao céu ainda frio; o vermelho aparece apressado nos semáforos, nos batons borrados depois do almoço, das flores esquecidas nos canteiros das cidades.

Havia também o cinza — talvez a cor mais presente de todas. Mora nos ônibus lotados, nas segundas-feiras, nos elevadores silenciosos, nos prédios sóbrios e nos pensamentos que ninguém dizia em voz alta. Mas o cinza tinha um segredo: ele só existia para fazer as outras cores respirarem melhor.


As pessoas passam correndo todos os dias sem perceber muita coisa. Compram café, reclamam do calor, atendem ligações, olham relógios. Andam apressadas, fazendo tudo quase que no automático. A gente também não vê as cores escapando delas o tempo inteiro, mesmo quando estão lá: o verde tímido na esperança do rapaz desempregado que, ainda assim, passava perfumado; o rosa da menina que sonhava ser bailarina e treinava passos discretos enquanto esperava o ônibus; o laranja quente da mulher que ria alto depois de semanas difíceis, como se estivesse reaprendendo a existir.

Talvez por isso, no fim da tarde, o roxo do pôr do sol lembra, mesmo aos mais distraídos, que até o fim de um dia pode carregar alguma beleza. O mundo tende a ficar cinza depressa demais e algo precisa lembrar as pessoas de que ele não nasceu assim. As cores, satisfeitas, continuarão vivendo onde sempre viveram: escondidas nos detalhes que quase ninguém nota — esperando apenas alguém disposto a olhar devagar ou a pintar da maneira certa, antes que a cor desbote.

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