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15:37
31 janeiro 2011
Ser humano
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Renata F.
Como seres humanos, carregamos a condição de ser humanos — ainda que nem sempre saibamos nomear o que nos atravessa. Há quem ignore esse dom, há quem o tema; mas ele existe, silencioso, insistente. A cada dia, algo se revela — às vezes no mundo, quase sempre em nós — e, nessa descoberta, nasce um orgulho discreto, quase tímido, de ainda estarmos vivos. Eu, porém, nunca soube me orgulhar do que, dizem, realmente importa. Talvez porque a vida não se entregue em evidências; ela insinua, desloca, confunde. E, por vezes, nos surpreende onde menos esperamos.
Nunca acreditei plenamente na felicidade — ao menos não nessa ideia inteira, absoluta. Não me considero infeliz; reconheço, com honestidade, a beleza do que tenho. Mas também não me iludo: há em mim uma ausência, uma lacuna sem forma, e temo que ela jamais se preencha. Ainda assim, houve um instante — breve e improvável — em que encontrei a felicidade. Longe de tudo o que me era familiar, distante até de quem me fazia bem. E, justamente por isso, talvez tenha sido tão verdadeira. Mas foi efêmera. Quando percebi, já havia passado, como passam as coisas que não pedem permissão para ir embora. Esse é o paradoxo da felicidade: quando chega, parece eterna; quando parte, revela-se apenas um instante. E, ainda assim, permanece. Não como presença, mas como memória viva — algo que não se apaga, que insiste em existir dentro de nós. E, estranhamente, é disso que me orgulho: de ter sentido, ainda que por pouco.
Se algo tão essencial é também tão raro, o que nos mantém em movimento? Já me fiz essa pergunta inúmeras vezes — e, em muitas delas, quis desistir. Mas, entre quedas e recomeços, encontrei uma resposta possível: é a busca que nos sustenta. A ideia — quase fé — de que, em algum lugar, a felicidade ainda nos aguarda é o que nos faz continuar. Caminhamos por ela, às vezes a vida inteira. E talvez nunca a alcancemos por completo.
Hoje, não sei dizer se sou plenamente feliz — ou sequer o bastante. Mas sei que sigo. E, como humana que sou, encontro nisso um certo orgulho: o de continuar caminhando, apesar do medo, do erro, da dor. Ou, quem sabe, da própria felicidade.
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16:09
28 janeiro 2011
Eternidade
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Renata F.
Cada minuto que passa é apenas mais um a se perder;
irrelevante é cada passo rumo a um horizonte que engana.
Já não reconheço o perfume das flores do jardim,
e tudo se desfaz — fiel à inevitável razão do seu fim.
irrelevante é cada passo rumo a um horizonte que engana.
Já não reconheço o perfume das flores do jardim,
e tudo se desfaz — fiel à inevitável razão do seu fim.
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23:18
27 janeiro 2011
Pelo prazer de viver
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Renata F.
Quando ela acordava — era sempre um belo dia — não buscava saber o que viria. Nunca acordara sabendo, assim como nunca adormecia imaginando. Havia, entre o sonho e a realidade, um laço sutil que poucos percebiam e que nela se revelava com nitidez: a aparência.
Quantas vezes se viu em situações tão improváveis quanto um sol nascendo fora de forma — cenas intensas, quase irreais, de uma beleza que só parecia caber nos sonhos. E, ainda assim, aconteciam. Como sonhos vividos.
Mas houve um aprendizado silencioso, colhido nos instantes de ingenuidade e nas tentativas falhas de compreender esses dois mundos: há momentos em que simplesmente viver já é sonhar.
E, no entanto, a vida — esse retrato do que é, do que se vive — já não preenchia o espaço que havia nela. Perdê-la não era uma escolha, mas, de algum modo, parecia coerente com o que sentia. Porque a vida, às vezes, é tão incerta quanto o sonho — e tão verdadeira quanto ele.
Quando despertava, naquele belo dia que sempre se repetia, já não sabia distinguir. Não era mais sonho. Era realidade. Ou talvez ambos. Então ela voltava a dormir — não para prever o amanhã, nem para entender o que viria ao acordar — mas apenas pelo simples, quase sagrado, prazer de continuar vivendo.
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14:50
Olhos tardios
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Renata F.
Cansados, doentes, tristes — rostos assim estavam por toda parte. Havia neles uma ausência que pesava: descrença, desalento, uma fé quase extinta. Pensamentos sem chão vagavam por aquelas mentes e se denunciavam nas faces pálidas, nos olhos que já não escondiam nada. E, então, as lágrimas vinham — não por escolha, mas por cansaço — ainda presas a um fio frágil de esperança de que tudo não passasse de engano. Mas, noite após noite, ao sussurrarem suas preces, lembravam: não há retorno. E a incredulidade, fiel, retomava seu lugar.
A vida passa por nós enquanto insistimos em atravessá-la de olhos fechados. Quando, enfim, decidimos abri-los de verdade, ela já se afastou — discreta, quase elegante — como quem parte sem ruído, levando consigo tudo o que não soubemos viver. Segue adiante como se jamais tivesse doído, e deixa em nós o peso de tê-la perdido.
A morte não é apenas um fim; é um sentimento que permanece. Duro, denso, persistente — instala a dor e a alonga no tempo. É algo que pode se apagar e reacender, como poucas coisas na vida. E, quanto mais a evitamos, mais nos falta sentido — porque é no confronto com ela que, por vezes, começamos, enfim, a compreender o que é viver.
às
22:23
21 janeiro 2011
Fora de casa
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Renata F.
Lá fora, o vento atravessava as ruas com uma pressa fria, quase cortante. A cidade seguia seu próprio ritmo, indiferente, como se soubesse caminhar sem ninguém. Os pássaros ainda voavam, insistentes, em direção a um sol tímido, escondido entre nuvens densas e cinzentas. Então a chuva começou — e eu permaneci ali. Senti cada gota cair: honesta, pesada, inevitável. O dia passou por mim como quem não pede licença, e, quando percebi, eu ainda estava no mesmo lugar.
Em algum ponto, sem aviso, tudo mudou. A luz se dissolveu e o mundo se tornou mais escuro do que deveria. Já não era dia. A noite caiu como um véu espesso, e as estrelas, fracas, pareciam incapazes de existir. O frio se intensificou, o vento ganhou força, e algo em mim começou a se apagar. O calor — do corpo, da cidade, das pessoas — havia desaparecido.
Respirei, por instinto. Para continuar viva. Mas o ar não veio. Foi então que um pensamento me atravessou: talvez eu estivesse morta.
As ideias começaram a surgir, desconexas, como fragmentos de algo que eu já não compreendia. Não sabia dizer o que ouvia — se era o sussurro de uma mata invisível ao meu redor ou o som irregular do meu próprio coração. Ele pulsava forte, insistente, como se quisesse me lembrar de algo que eu sempre evitei encarar.
Lembranças vieram — não como histórias, mas como sensações. Dor sem nome. Medo sem origem. E, no meio disso tudo, uma verdade incômoda começou a se formar: talvez eu nunca tivesse realmente sentido. Ou, pior, talvez tivesse sentido — e escolhido não admitir.
Havia em mim uma distância estranha, como se eu observasse tudo de fora. Como se meu corpo estivesse ali, imóvel, enquanto algo em mim vagava, perdido. Não soube dizer quando isso aconteceu, nem como. Só percebi que já não estava inteira. E, pela primeira vez, o vazio pareceu não ser apenas ausência — mas presença. Uma presença silenciosa e densa que me envolvia por completo.
às
16:58
17 janeiro 2011
Trovoada
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Renata F.
Após uma tempestade, é provável que nada fique igual. As pessoas ou o mundo, nada jamais retorna ao que foi. Muito pode mudar, muito pode acabar. Eu não fiquei igual; eu parti.
Diante dos pequenos cacos de vidro espalhados pelo chão — reflexos partidos de um mundo em ruínas que, ainda assim, insistia em desejar o amanhã — eu fiz o que qualquer um faria: desviei o olhar. Não queria ver. Queria apenas correr.
Corri com a urgência de quem foge de si. E, no ímpeto, escorreguei — sem perceber, ou sem querer perceber, o que a vida tentava me mostrar. Deixei muito para trás. Talvez uma vida inteira, talvez apenas fragmentos — mas ainda era vida, ainda havia nela algo a aprender. Ainda assim, eu só queria correr. E, se fosse possível, voar. Melhor ainda seria voltar a sonhar.
Houve um tempo em que os sonhos me atravessavam com força. Sustentaram meus dias, deram forma ao que eu não sabia dizer. Nunca fui boa em entendê-los — muito menos em realizá-los —, mas eles estavam ali, como uma promessa silenciosa. Até que o mundo em que cresci, áspero e desorientado, começou a apagá-los. E, no fundo, a vontade que me restava era a de nunca ter existido.
Com o tempo, deixei de sonhar. Já não havia esperança neles — apenas a repetição de ilusões que eu não conseguia sustentar. Desisti. Convenci-me, por muito tempo, de que nada mais habitava em mim.
Mas diziam que me faltava algo. Diziam que eu nunca havia me apaixonado.
“Amor.”
A palavra me soava distante, quase absurda. Eu perguntava o que era, e o que recebia em troca eram olhares carregados de espanto — como se minha ignorância fosse um erro imperdoável. Eu ria por dentro. Parecia uma invenção, uma fraqueza qualquer.
Até que senti.
Veio sem aviso, como a primeira gota antes da tempestade. E, quando percebi, já não havia volta. A água veio inteira — invadiu tudo, levou o que eu era, desfez minhas certezas. E, silenciosamente, começou a arrastar meus dias… como se cada um deles escorresse, inevitável, pelo ralo do tempo.
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