27 janeiro 2011

Pelo prazer de viver

Quando ela acordava — era sempre um belo dia — não buscava saber o que viria. Nunca acordara sabendo, assim como nunca adormecia imaginando. Havia, entre o sonho e a realidade, um laço sutil que poucos percebiam e que nela se revelava com nitidez: a aparência.

Quantas vezes se viu em situações tão improváveis quanto um sol nascendo fora de forma — cenas intensas, quase irreais, de uma beleza que só parecia caber nos sonhos. E, ainda assim, aconteciam. Como sonhos vividos.

Mas houve um aprendizado silencioso, colhido nos instantes de ingenuidade e nas tentativas falhas de compreender esses dois mundos: há momentos em que simplesmente viver já é sonhar.

E, no entanto, a vida — esse retrato do que é, do que se vive — já não preenchia o espaço que havia nela. Perdê-la não era uma escolha, mas, de algum modo, parecia coerente com o que sentia. Porque a vida, às vezes, é tão incerta quanto o sonho — e tão verdadeira quanto ele.

Quando despertava, naquele belo dia que sempre se repetia, já não sabia distinguir. Não era mais sonho. Era realidade. Ou talvez ambos. Então ela voltava a dormir — não para prever o amanhã, nem para entender o que viria ao acordar — mas apenas pelo simples, quase sagrado, prazer de continuar vivendo.

0 recados:

Postar um comentário

 

(Re)inventando © 2010

Blogger Templates by Splashy Templates