31 outubro 2010

Querido John

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"Mas eu a conheci, e é isso que torna minha vida atual tão estranha. 


Eu me apaixonei por ela enquanto estávamos juntos, e me apaixonei ainda mais nos anos em que ficamos separados. Nossa história tem três partes: um começo, um meio e um fim. Embora seja assim que todas as histórias se desenrolam, ainda não consigo acreditar que a nossa não durará para sempre. Reflito sobre essas coisas, e como sempre, nosso tempo juntos retorna à minha mente. Relembro como tudo começou, pois agora essas memórias são tudo o que me resta."

Querido John

Sinos

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                 Eu ouço os sinos tocarem... Os sinos da igreja, ouço-os pela varanda de meu quarto. Àquela hora, já havia começado. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Eu via a igreja daqui. Agora, era só esperar. E isso me assusta muito. Ainda o amava, mas de alguma forma isso não era mais importante.
                     Meu estado de espírito me assolava. Cada respiração era forte e pesada, quase um fardo, uma dificuldade enorme. Deitei na rede da varanda, esperando alguma coisa inespecífica. Juízo, talvez, ou a felicidade que eu sabia ter perdido. A pior parte é ficar pensando em tudo de novo, olhando para igreja, imaginando lá dentro e, principalmente, ele. Remoendo, sonhando e chorando. Eu me puniria mais tarde aquela noite por isso.


                       Ela estava linda, sentada naquela poltrona de algodão. Eu a vi antes de entrar na igreja. Ainda consegui distinguir seus traços, alguns dos traços mais marcantes dela, mas era difícil daquela distância. Todos aqueles traços perfeitos, que eu amei desde a primeira vez que vi. Ela ainda era a mesma, ainda era o mesmo encanto. Sim, eu ainda a amava, como nunca vou amar ninguém em minha vida. E eu lamento como tudo terminou, todos os dias. Mas a esperança sempre foi minha amiga, tanto que me ajudou no que foi o momento mais difícil daquele dia inoportuno. Mas não me arrependo pelo que fiz. Abracei a vontade e fui, cambaleando, até a minha velha felicidade.

29 outubro 2010

Promete não me esquecer?

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                  Para aquele par de olhos que me fitava, misteriosos e desconhecidos, eu era apenas mais uma pessoa o encarando. Mas para aquele coração, que eu podia sentir batendo dentro de mim, ele era alguém, que eu era capaz de fazer tudo só para tê-lo perto de mim. Se tinha alguma, pouca, diferença entre nós dois era que eu queria aqueles olhos perto de mim, e ele, ficar longe. No meio de tanta gente, música e bagunça, eu só via e ouvia. Ele e meu coração. Tinha alguma coisa nele que me tirava o ar e me prendia a atenção, mas ele não parecia se comover. O que eu esperava? Ele era um estranho. Mas eu tinha uma leve impressão de que já o conhecia de algum lugar.

"Eu conhecia bem aquele pôr do sol, mas hoje ele estava diferente. Mais bonito, mais perfeito. Tão perfeito quanto rosto à minha frente. 'Eu te amo', ele sussurrou baixinho. 'Eu te amo', devolvi. Ele era meu como o meu coração era dele. 'Não, não é um sonho', eu pensava. Aquilo, eu tinha certeza cada vez mais, não era apenas um sonho. Eu era sim a mulher mais feliz do mundo."

Graças da vida

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- Você quer ouvir uma coisa engraçada?
- Claro.
- Eu te amo.

De malas prontas

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                 Malas do lado de fora, o quarto vazio. Eu perdia tudo devagar. As estantes da parede à esquerda, onde ficava os meus livros, meio penduradas, meio caindo; as janelas com as marquinhas de caneta e canivete, cada qual uma história diferente. Se lembra do quadros que achei no fundo do guarda-roupa, quando pisei naquele quarto a primeira vez? Pois é, ainda estavam lá, quase novos em folha bem guardados. O chão, de piso bem frio, brilhava como no dia que foi limpo pela primeira vez. As paredes já estavam descascando pelo tempo de histórias que tinha para contar.


                  Já fazia um ano, mas parecia um mês, e agora, para sempre. Tinha tanta coisa que tinha medo de esquecer. Memórias, momentos. Meus escritos, na pasta vermelha embaixo da televisão; meus bichos de pelúcia, decorando as paredes com uma infância que não queria ser esquecida. Meu abajur em forma de Pikachu, que usava para ler de madrugada, quando não conseguia dormir, logo que cheguei ali. Toda minha infância, toda a minha história. Mas se tinha um lado bom de sair dali era que aquela era uma imensa casa pronta para uma nova história. E quanto a mim, uma imensa história pronta para uma nova casa. O que tinha naquelas malas era eu.

Subterfúgio

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"Não entendo a vida, não entendo nada. Porque assim, porque não de outro jeito. Porque tudo acontece tudo do jeito que acontece. Não consigo viver, pois não entendo o porquê de viver. Quem um dia entendeu? Não há mais o que sonhar, a esperança se foi. Um amor eu sinto, mas não há para quem o guardar. Porque eu pareço estar em outro lugar, não dentro de mim, não onde eu realmente estou. Não existe o agora nem o amanhã nem o depois."

23 outubro 2010

A casa do lago

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                   Na minha doce infância, que os dias não trazem mais, eu me lembro de uma coisa em especial, a única coisa que me fazia sonhar. O lago em frente à minha casa. Ainda continua lá, mais antigo e velhinho do que antes. Eu costumava ir lá todas as tarde, no pôr do sol principalmente. Deitava no gramado enorme, que eu sempre cuidava com carinho e que estava sempre bem verdinho e passava horas observando o reflexo do sol no lago. As poucas árvores, algumas bem grandes, todas tinham folhas com cores diferentes. Umas verdes, umas marrons, outras amarelas. Ao pôr do sol, era maravilhoso. Ficava hipnotizada. As horas passavam e eu nem percebia. Era como um refúgio e o melhor de tudo era que eu me permitia sorrir.


                    Eu gostava particularmente de observar os pequenos peixes, que pulavam a toda hora por ali. Pedia ao papai para me ajudar a cuidar deles. Ele sempre me incentivava. Tinha uns dourados, uns cinzas, outros bem branquinhos. Um peixe de cada cor que eu imaginava. Quando pulavam, a água respingava em mim e eu chorava de felicidade. Agora, ao lembrar, choro de saudades, ao mesmo tempo que sorrio ao lembrar da época de nós dois juntos naquele lago. Meu mundo aos 7 anos. Até a hora de voltar para casa, a hora da solidão. A hora que mamãe chamava para dentro, interrompendo meus sonhos, logo depois que papai partiu.
                    E eu caminhava de volta para casa, feliz comigo mesma e em paz, já com saudade do meu pequeno lar. Ele não ficava com o mesmo encanto à noite. Eu aqui, eles lá.
Mas eu não dizia, àquela época, que o mundo era um lugar feio. Pelo contrário, ele sorria para mim cada vez que eu cantava. Eu beirava a esquina da felicidade, mas eu não podia dizer isso a mais ninguém, nem mesmo ao peixes, senão eles iriam embora para longe de mim. Mais uma vez.

Lágrimas incontroláveis

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Estava tudo parado, quieto e calmo. Tudo anormalmente controlado.

                Passou um dia, uma semana, um mês, e ele continuava lá, impregnando minha mente. Não foi por falta de tentativa, só uma questão de coragem, uma oportunidade pra esquecer. Mas não deu tempo. Eu não fui capaz de controlar meus sentimentos e eles que acabaram me controlando.
                Tinha uma façanha que costumava funcionar sempre: chorar. As lágrimas eram sempre boas amigas. Mas dessa vez, por mais que tentasse, não melhorava, só piorava. Pensar não melhorava as coisas, nunca melhorara. E chorar me mostrou muitas coisas que eu não via antes; chorava muito. Eram riachos de tristeza do meu coração. Mas numa dessas vezes, difícil dizer o que aconteceu, tudo mudou.




              Era noite e eu estava deitada, pensando na vida e em tudo que me acontecera. Uma daquelas noites em que eu ocasionalmente levantava para lugar nenhum da casa e começava a chorar descontroladamente. Até que um toque do telefone me despertou da minha insônia noturna. "Vamos, levanta dessa cama. Vamos pra casa". Era uma amiga. Ela pedia que eu me animasse há dias e dava-me uma vida quando eu perdia a minha. E mais uma vez ela me deu. E mas uma vez, ela tinha me desenhado de novo.


                       Já em casa, o dia clareou e não parou mais... Ele estava lá.

22 outubro 2010

Amor infinito

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                    Ainda não sei o que me levou à tamanha mentira. Na verdade sei, sim. Ilusão. Em parte, foi o meu maior motivo. Ilusão que eu criei naquele momento de que voltaríamos a ser o que fomos antes e melhor. A sensação de o chão se abrir sob seus pés... Eu não sabia. E nunca tinha sentindo isso em toda minha vida, à exceção daquele momento.
                   Eu não era de ficar me perguntando sobre as coisas, eu era mais de falar. Algumas vezes, eu era segura e evasiva, em outras, tremia. Mas gostava mesmo de falar. E isso incluía, muitas vezes, agir por impulso e me iludir. Quase todas as vezes. O difícil era dizer porquê.


                  Tamanho era a minha convicção naquele momento que eu era só ilusão. O impulso, eu tinha esquecido. Ilusão de nós dois juntos mais uma vez, as lembranças intactas quando eu as refizesse em minha mente. Tudo fazia sentindo na minha cabeça, mas na vida real não tinha nenhum. Às vezes, a gente mente, sente alguma necessidade. Eu já, várias vezes, o havia feito antes, mas não com tamanha intensidade. Não que fizesse eu me arrepender tanto assim. Desejei nunca ter proferido nenhuma palavra, pela primeira vez em minha vida. 
                            - Você não vai me fazer falta.  
                     Mas, mentalmente, eu dizia que nunca iria esquecê-lo. Dizia que meu corpo clamava por ele, que meus braços o queriam perto de mim a cada instante, que o tempo não passava com ele longe e que meu amor era infinito. Sim, ele me faria falta sim, como já estava fazendo. E na imagem de nós dois juntos que eu guardava, mutuamente nos amparavámos, abraçados, como se nada tivesse acontecido.

19 outubro 2010

Se...

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Se...
...valer a pena, eu corro atrás;
...durar, eu enfrento;
...for demais, eu suporto;
...existir, eu vivo;
...trouxer sorte, eu vou estar no lugar certo;
...ajudar um coração, eu dou;
...se não machucar tanto, será perfeito.

Talvez um príncipe...

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“Não sei, até hoje não sei se o príncipe era um deles. Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais. Eu dava um cavalo branco para ele, uma espada, dava um castelo e monstros para ele matar, dava todas essas coisas e mais as que ele pedisse. Fazia com areia, com sal, com as folhas dos coqueiros, com as cascas dos cocos, até com a minha carne. Eu construía um cavalo branco para aquele príncipe. Mas ele não queria, acho que ele não queria, e eu não tive tempo de dizer que quando a gente precisa que alguém fique, a gente constrói qualquer coisa, até um castelo.”

(Caio Fernando Abreu)

Folhas em branco

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          Era o meu maior medo, a minha morte prematura. Apesar da convicção do que eu sentia e da certeza e da clareza com os quais os sentia, não podia mais definir meu futuro. Eu o tinha destruído para sempre. Meu sonho? Foi-se embora, junto aquelas folhas de papel em branco. Meu talento? Um dia existiu. Culpa minha, claro. E virou a vida de um outro alguém. Entre chorar e desistir, só tinha tempo pra respirar e tentar pensar em uma saída. Mas nada estava no mesmo lugar. 
                  Os finos traços da minha imaginação foram embora. Minha vida, que um dia se encontrara toda naquelas palavras ali escritas, se perdeu.

Porto seguro

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- Aonde você for, eu te seguirei. Serei teu ombro amigo, eu te ajudarei. Aonde você for, estarei com você, em pensamento ou ao teu lado. Vou chorar, vou sorrir, vou sofrer contigo. Ouvirei tuas histórias, emocionarei-me, sentirei o mesmo que tu. Eu te entenderei e te acalmarei. Chorarei quando pedires uma lágrima, serei a borracha que apagará tuas más lembranças, serei o abraço que te trará um sorriso. Quando precisar de um afago, darei-te carinho e afeto. Tirarei de ti todas as preocupações. Quando precisar de segurança, serei teu anjo da guarda. Quando precisares de um irmão, estarei lá para te confortar e segurar tua mão. Curarei tuas dores, tuas saudades e tuas culpas. Quando precisares ir embora, estarei no porto e te alcançarei à tempo de dizer "até logo". Quando você partir, estarei sempre contigo, e ainda que anos e anos se passem sem uma única palavra ser dita, jamais te direi "adeus".

Amizade

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- Foi engraçado.
- O que ele fez?
- Sentou atrás de mim e puxou meu cabelo.
- E o que você fez?
- Aí, chutei a perna dele. Com força.
Dando gargalhadas, a amiga finalizou:
- Ah, meu Deus, você gosta dele!

Cartas na mesa

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- Você está blefando.
- Prefere arriscar?
        É, eu estava blefando, mas não imaginava que ele fosse acreditar. Ele estava seguro demais de si, como sempre, parecia falar a verdade. Mas eu estava chegando ao seu ponto fraco. Ele não consegue mentir.











- Mostre-me suas cartas.

            Mas sabia cutucar, provocar e acertar. Eu não tinha cartas, esperava que ele me mostrasse as dele. Ele me pegou, e eu fiquei surpresa. Ele ainda me conhecia.

18 outubro 2010

De olhos vendados

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E se eu fosse cega?


               Nunca me imaginei sem nada. Perder tudo, inclusive a sanidade. Perder o sol, o mar, as estrelas. Os sorrisos, ah, os sorrisos, em rostos tão conhecidos... E morrer.

               Fechei os olhos. Lembrei de todas as coisas que deixaria. Coisas que não faziam diferença alguma, repentinamente, senti saudades. As mais importantes, eu nem notei. Fiquei sufocada, perdi meus sentidos. Eu senti, pela primeira vez, o que é medo. Horror de meus olhos nunca mais abrirem. Abri-os na mesma hora. Fiquei com medo de fechá-los de novo e ficar cega pra sempre.
           Ainda muito perco de olhos abertos. Ainda perco a visão. Nos momentos de fragilidade e de agonia, fica tudo, primeiramente, turvo. Depois escurece, fica preto. Só sinto meu corpo e o vento soprando. Começo a dar valor à minha visão, que eu nunca notei. Mas, em algum ponto crítico, eu perco todo esse valor de novo, e começa tudo outra vez.



"Acho que perdi a sanidade. Tenho saudade dos contos de fada..."

17 outubro 2010

Fogos de artifício

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                    Sim, ele estava sorrindo. Sorrindo feito um bobalhão. Podia sentir seus músculos. Não tinha aquela sensação a muito tempo e estava surpreso consigo mesmo. Mas estava admirado demais com aquela garota para ficar divagando. Ela era mais importante. Uma moça tão bonita quanto aquela ele nunca tinha visto. Ainda não acreditava em seus olhos. Estava encantado não só pela beleza, mas também pelo carisma. Quando sorria, era como fogos de artifício; explodia e brilhava no céu.
         Do mais, percebeu que ela era perfeita. Os cabelos, compridos fios lisos e arrumadinhos, caiam desleixados pelos ombros. Dos olhos, os mais marcantes e misteriosos, não podia apurar a cor. Mas o que adorava mais nela era seu sorriso, como se nunca tivesse conhecido a dor. Inocente e tenro. Ela devolveu a graça ao seu rosto. Se aqueceu no sorriso dela. Eram fogos de artifícios que via seu rosto jorrar?

"And you have the most amazing smile"
(The Maine)

Onde o sol nasceu quadrado

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                 Eu estava lá para ver o sol nascer quando soube que você já estava em casa. Pegou todas as suas roupas e levou-as com você. Escreveu um bilhete de desculpas e mais algumas outras coisas de despedida cheios de melancolia. Clichês que eu já conhecia bem. Um abraço ou um beijo de despedida? Fiquei esperando sentada naquela pedra, lá na praia.
                O mar estava um pouco agitado, enquanto observava o clarão do céu mudar para um laranja-fogo. Imaginava onde estaria você. Sentia saudades? Não, é claro que não. Estaria arrependido? Muito provavelmente não. Perguntas que eu já sabia a resposta, mas ainda fazia questão de me perguntar. Pelo momento, eu estava feliz. Pensativa, cautelosa, com um leve vestígio de paz, mas ainda respirava. Já não me importei mais com o armário vazio, nem com as fotos de nós dois fora dos porta-retratos ou até mesmo o seu lado vazio da cama, antes bagunçado, agora impecável, como no início. Tudo seria preenchido novamente um dia.

 

O dia amanheceu e o mar estava incrivelmente quieto de novo...

16 outubro 2010

Adorável insignificância

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                       Uma vez por ano - e quando digo uma, quero dizer algumas - me lembro de como sou insignificante. Não apenas eu; os outros tanto quanto eu, mas acima dos outros, eu. De tudo que acontece no mundo, me pergunto o que eu tenho feito, e o silêncio apareceu. Nada. Quantas vezes me levantei e ergui a cabeça, dizendo que ia procurar um modo de mudar meu pensamento e falhei. Diversas vezes fui atrás de algo que não sabia o que era e nada encontrei além de frustração. Sem contar às vezes que chorei sem motivo nenhum para tanto, e apenas isso eu fiz, derramei lágrimas. Milhões de vezes, a culpa veio e tirou de mim a sanidade, só para me fazer enxergar o que estava errado, mas meus olhos estavam embaçados e não me deixaram ver. Caí vezes após vezes e minhas pernas se recusaram a me levantar, porque eu estava pesada demais. Os erros se abateram sobre meu corpo, muito peso sob meus ombros. Se eu aprendi? Não, e não acredito que ainda possa aprender. Serei uma  insignificante pelo resto de meus dias, isso é o que eu valho. E por mais estranho que isso possa ser, o dom da insignificância combina bem comigo.

13 outubro 2010

Uns rabiscos

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                Uma tinta escura como a noite e uma folha de papel em branco em cima de mesa. A minha vontade é apenas de riscar lindas histórias ou tristes pensamentos. Uma poesia ou um desenho. Ou ainda, a negritude podia manchá-la com palavras sem sentido. Rabiscar, me deixar levar. Quantas coisas me atraem para ser ditas, ou melhor, escritas, coisas que nunca tive coragem de dizer, coragem de ao menos pensar. Mil coisas vieram em minha cabeça que eu poderia escrever naquelas linhas. Uma história fantástica? A história da minha vida? Nem sabia por onde começar essa história. Então, as palavras fluíam facilmente, de uma vez, e induziam minha mão a tocar aquela seda, mas com outra história. Como eu vi o céu, eu representei; as estrelas, o mar, o homem. Quaisquer palavras que vinham, eu soltava e experimentava. Eu sabia, estava uma confusão. Tinha mais riscos que um desenho de criança, mas ainda era uma bela obra prima.

11 outubro 2010

Sussurros

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- Você sente?
- Muito.
- Forte?
- O dia todo.
- Como é?
- Inexplicável.
- Tem certeza?
- Sim.
- Mas e se não for?
- É, eu sei.
- Como? Não dá pra ter certeza.
- Mas eu sei.
- E se você se arrepender?
- Nunca vai acontecer.
- Você jura?
- Juro.
- Então fala pra mim.
- Aqui, agora?
- Sim, em alto e bom som, para o mundo todo ouvir.
- Eu te amo.
- Porque você sussurrou?
- Porque, se ouvirem, podem roubar você de mim.

Boa infância pra você

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               Eram mesmo bons tempos, como os adultos diziam e a gente nunca acreditava. O sorriso angelical, a inocência e o olhar de garotinha sapeca que hoje não existe mais. Às vezes, ainda não acredito que já fui assim tão juvenil. O jeito infantil e divertido de acreditar em tudo, rindo de cada pequeno gesto. Como era bom ser criança, quando não precisavámos esconder nada de ninguém e nossa única preocupação era não ter com quem brincar. Era tão fácil ser sincera, naturalmente, e mesmo que não quisessem ouvir ou não fosse agradável, tinha sempre alguém lá para escutar. Sensação de carinho, um abraço apertado que a gente não queria largar nunca, nunca, uma queda que parecia um problemão. Era bom quando tinha sempre alguém pra cuidar da gente quando a gente se perdia. Hoje é engraçado o que um dia já foi um fardo. A felicidade era mais comum aquela época. Quantos bons momentos em um tempo tão curto! Passou tão rápido quanto o dia foi embora. Queríamos crescer quando éramos crianças, agora dizemos que éramos felizes e nem sabíamos. Que digamos todos em uma só voz:
- Quero voltar a ser criança!...
...porque esse dia chegou.

12 de outubro de 2010, dia das Crianças.
Boa infância pra você.

08 outubro 2010

Metamorfose ambulante

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           Amanhã já não serei mais eu. Um corpo vazio, pedindo outros dias, clamando à minha alma. Por onde andarás? A noite amanheceu, o dia entardeceu, novas nuvens apareceram, o céu mudou de cor. Quem diria, uma nova identidade? A metamorfose minha, também da vida que ganharei. Interpretei outro papel e decorei outras falas, vi as folhas amarelarem no outono. O verão já passou e levou aquele outro alguém, não restou quase mais nada. Estará perdido? Não, virá sempre com ele, o outono. Um dia o buscarei de volta. O recomeço do começo. Não mudarei muito, de fato, apenas refletirei. Quando o dia amanhecer, estarei lá eu para ver o sol chegar, com outros olhos, outras emoções. Verei que minha alma não mudou tanto assim.

"Prefiro ser essa metamorfose ambulante..."
(Raul Seixas)

05 outubro 2010

Querido diário

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               "Fazia dias que tentava falar com você, mas a coragem não apareceu. Sim, sou uma fracassada. Me sinto culpada pelos dias em branco. Foram muitas páginas, muitas palavras não escritas. Involuntariamente, eu quis preencher cada linha, contar os fatos agora já não tão necessários, mas estava com medo de não funcionar, de você não acontecer. De todo modo, agora não há mais o que lembrar. A caneta falhou, não queria mais escrever, e eu nem podia reclamar. Eu senti falta. Me lembro que você era a única coisa que tinha, meu único amigo, meu apoio. Encaixava perfeitamente tudo como uma peça de quebra-cabeça. Não imaginava como ia começar a explicar meus dias mudos e acho que não comecei bem. Sinto que ainda não disse tudo o que queria. Mas peço que tente me perdoar, não foi porque eu quis. Quanta saudade sua! Nem imagino como estava respirando todos esses dias. Prometo nunca mais ficar tanto tempo calada. Preciso de cada instante aqui, nas linhas do meu caderno, para sempre."

03 outubro 2010

Entre anônimos

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          "Lembra quando costumava ser apenas nós dois? Lembra quando me prometeu os meus dias mais felizes? E você, de fato, os deu. Foram os mais felizes, mas você está lá, em todos eles, e não está aqui, agora. Você lembra quando disse que ia definir o amor com o meu nome no dicionário? Quando pedi um sorriso e você me deu um abraço apertado, como se não quisesse me perder? Das promessas que fizemos juntos, olhando nos olhos? Das palavras que me falava antes do 'bom dia' ou do 'boa noite'? São tantas as lembranças que nem mesmo pude me obrigar a dizer todas, porque não aguentaria vivê-las novamente. Eu realmente acreditei e agora dói me dar conta de que foram apenas palavras. Eu nem sei mais se foram ditas por você mesmo ou por outra pessoa, a que verdadeiramente está aí dentro de você. Obrigada pelo anonimato. Foi melhor pra mim saber que eu não te conhecia.

 Assinado,
um outro alguém."

(Des)acreditando

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(...)
- Você viu isso? Ela realmente existe! E todos falando que ela não existia.
- Sim, eu vi, mas não posso dizer que acredito. Pode ser uma mentira ou até mesmo ilusão. O mundo está cheio disso tudo, ultimamente. Quem sabe não é só mais uma delas...
- É, pode ser. De fato, é meio maluquice. Mas o mundo todo é uma maluquice e nós acreditamos nele, não é mesmo?
- Que seja, mas ainda não me convenci. Quem garante que essa maluquice existe mesmo? A gente pode ver? Pode tocar? Pode sentir na pele? Não! É só mais um monte de besteiras.
- Acho que tem razão. Só achei, por um segundo, que talvez não fosse besteira pensar que ela existia, e que valia a pena acreditar. Sonhar e ser real, não ser só imaginação. Quem eu estou querendo enganar. Magia não existe mesmo...

Bate forte, coração

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           Eu não sabia ao certo dizer o que era. Não sabia se eram passos, o barulho do vento contra as janelas ou se era só coisa da minha imaginação, mas, para mim, parecia bem real. Não conseguia ver o que era, porque estava de noite e sem luz alguma, muito escuro, mas tinha certeza que estava só. Não havia como alguém entrar naquele breu. Algo estava me seguindo. Estava tão próximo de mim, eu sentia, que era quase como se estivesse dentro de mim. Eu podia ouvi-lo. Fazia um som pesado e estava tudo mais acelerado que o normal. Nunca tive medo do escuro e nem eu mesma sabia que meu coração o adorava. Era o começo uma perigosa nictofobia.

Luto

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                 Aquele cabelo colorido e o sorriso mal desenhado. O nariz vermelho, as calças folgadas e as piadas com cara de coisa séria. Quem nunca gostou de palhaços? Sim, eles eram engraçados. A alegria de cada criança pelo menos uma vez na vida. Há quem diga que eles foram a esperança de muita gente. Ah, quem dera eles ainda existissem! Quanto melhor o mundo seria, a vontade de querer viver novamente. Mas os deixaram morrer e hoje não existe mais graça. É tudo ilusão. Não se vê mais sorrisos. Tudo é decepção. Não é justo os palhaços morrerem, porque eles nunca nos fizeram chorar, e agora choramos por culpa nossa.

- Você costumava ser palhaço?

Ela apenas sorri

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Ela é diferente. Não vive à toa, sabe que a vida tem um próposito; tampouco se perde pela vida. Ela não se importa com o que está por vir, se importa apenas com o presente, o qual vive sem pena ou medo. Não vai atrás, deixa acontecer. O que tiver que ser, será. Não é isso que diz aquele famoso ditado? Ela o segue à risca. Não liga para o que pensam, liga para o que ela pensa. Sorri, porque ela sabe que ninguém nunca irá realmente entendê-la, mas não se preocupa, isso não importa mesmo. Ela está feliz, de qualquer maneira, e vai continuar assim pra sempre.

Pequeno ramo de flor

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                 Era branquinha e pequenininha, de uma beleza doce como o mel. Beleza que amanheceu e desobedeceu. Se espreguiçou pura e inocentemente, logo despertou. E que cheiro tinha! Tóxico e viciante... Era misteriosa e delicada em si, frágil e sem receios, mesmo não sabendo o que lhe esperava do lado de fora. Mas, mesmo assim, veio, modesta e fina, como sempre. Em semente, era jeitosa e casual. Nos primeiros ramos, era como se já estivesse em casa. Despertava uma flor, carente de amor. Uma linda flor, tímida e genuína, de uma beleza que arrancou suspiros até dos desapaixonados pela vida. Sem cravos, sem espinhos, apenas uma linda flor.

- Procuro pelo amor. Você saberia onde posso encontrá-lo?

01 outubro 2010

Velho porão

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Poeira, mofo e histórias. Cheiro de coisa velha. Era a primeira coisa que eu sentia quando entrava no porão, cheio de entulho, com coisas que costumava usar. Naquele pequeno quarto, cabia todas as minhas coisas, todas as minhas vivências, todas as minhas experiências no mundo que eu descobri. Uma bagunça, coisas jogadas e espalhadas pelo chão. Tudo que um dia fazia meu dia, agora completava aquele quarto, enchia-o de vida. Costumava achar que ficariam ali pra sempre, todos os momentos da minha vida, detalhe por detalhe de histórias para contar. Aquelas coisas velhas que me lembravam, de tempos em tempos, quem eu fui. Mas, de repente, tudo foi embora. Ficou vazio e enxuto; perdeu toda graça. Acabaram as memórias; uma hora, a gente sempre deixa elas irem, ainda que seja inesquecíveis. Agora já não sinto mais o cheiro de coisa velha, ofuscando o quarto e enchendo meus olhos de lágrimas. Só sinto um cheiro enjoativo de nada. No lugar da bagunça, sobraram apenas vestígios. Uma imagem deprimente e agonizante, uma imagem de pavor e tristes lembranças...

Pequena garotinha

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Era uma garotinha de muitos detalhes. Gostava de muitas coisas, amava a vida de qualquer jeito. Se sentia à vontade com pequenas coisas. Ela adorava parques. Não precisava de nenhum lugar além daquele, poderia viver ali pra sempre. Sentia um prazer imenso como não sentia em nenhum outro lugar. A brisa fresca no rosto e o cheirinho de natureza a fazia sentir-se em casa. Mas, principalmente, porque foi lá que encontrou seu melhor amigo. Contava as horas para visitá-lo. Era seu melhor ouvinte. Sentia a presença dele ali, como se tivesse vivo, meio velhinho, fraquinho, mas disposto a ajudar uma garotinha.
- Querido banco, é bom poder contar com o senhor...

Desafiando o amor

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Estavam felizes, como nunca antes se sentiram. Sentimento mais belo que aquele não existiu. Era amor puro, de saudade e apreciação, sem limite de tempo ou carinhos. Mas não foram só sorrisos e abraços. Ambos queriam a mesma coisa, mas não conseguiram conquistá-la juntos. Das lágrimas jorradas em momentos de discórdias, sentiam o amor presente ali, forte e pulsando dentro do peito, mas havia algo que os distanciava de vivê-lo juntos. O coração já não aguentava mais. Queria explodir e deixar entrar esse amor doce e, ao mesmo tempo, amargo. Dava prazer de vivê-lo só para ver sua pureza. Mas não foram fortes o bastante para vencer o desafio que lhes fora proposto. Deixaram-se levar pela circunstância de se amar como se não houvesse amanhã. E realmente não houve.
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