31 outubro 2010

Querido John

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"Mas eu a conheci, e é isso que torna minha vida atual tão estranha. 


Eu me apaixonei por ela enquanto estávamos juntos, e me apaixonei ainda mais nos anos em que ficamos separados. Nossa história tem três partes: um começo, um meio e um fim. Embora seja assim que todas as histórias se desenrolam, ainda não consigo acreditar que a nossa não durará para sempre. Reflito sobre essas coisas, e como sempre, nosso tempo juntos retorna à minha mente. Relembro como tudo começou, pois agora essas memórias são tudo o que me resta."

Querido John

Entre sinos e silêncio

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Eu ouço os sinos tocarem. Os sinos da igreja ecoam até a varanda do meu quarto, atravessando o ar quente da tarde como um aviso que chega tarde demais. Àquela altura, a cerimônia já havia começado. Não havia mais nada que eu pudesse fazer — ou talvez houvesse, e era justamente isso que me assustava. Dali, eu via a igreja. Pequena à distância, imensa dentro de mim. Restava esperar. E esperar, descobri, também pode ser uma forma de desespero.

Eu ainda o amava. Mas, de algum modo, isso já não bastava. Meu estado de espírito me consumia. Cada respiração vinha pesada, arrastada, como se o ar tivesse se tornado espesso demais para atravessar meu peito. Deitei na rede da varanda, deixando o corpo balançar num ritmo lento, quase como se quisesse enganar o tempo. Eu esperava por algo — não sabia exatamente o quê. Juízo, talvez. Ou algum vestígio de felicidade que eu sabia ter deixado para trás.

O pior era pensar. Reviver cada detalhe, cada gesto, cada palavra não dita. Olhar para a igreja e imaginar o que acontecia lá dentro. E, principalmente, imaginá-lo. Entre promessas e olhares que não me pertenciam mais. Remoía, sonhava, chorava em silêncio. Sabia que mais tarde me culparia por isso — por abandonar o que ainda sentia tanto.


Eu a vi antes de entrar. Sentada naquela poltrona, cercada por mãos cuidadosas e olhares encantados. Mesmo à distância, reconheci cada traço — os mais marcantes, os que ficaram gravados em mim desde o primeiro instante. Ela estava linda. Intocável. E, ainda assim, era a mesma. O mesmo encanto sereno, a mesma presença que um dia foi minha casa.

Sim, eu ainda a amava. De um jeito que sei que nunca mais vou amar alguém. E lamento, todos os dias, a forma como tudo terminou — as falhas, os silêncios, os desencontros que nos trouxeram até aqui. Mas, naquele dia, a esperança — essa velha companheira — ainda sussurrava em mim. Fraca, quase inaudível, mas persistente. Foi ela que me fez levantar e caminhar até a igreja. Foi ela que guiou meus passos incertos, cambaleantes, em direção ao que um dia foi felicidade.

Desci as escadas como quem atravessa um limite invisível. A cada passo, os sinos pareciam mais altos, mais próximos, mais definitivos. O mundo ao redor seguia como se nada estivesse acontecendo — mas dentro de mim, tudo desmoronava e se reconstruía ao mesmo tempo.

Parei diante da igreja. As portas estavam abertas. A luz invadia o interior como um convite — ou um desafio. Por um instante, hesitei. Pensei em voltar. Em aceitar o silêncio, a ausência, o fim. Mas não voltei. Porque, apesar de tudo, eu não me arrependo do que fiz. Há amores que não pedem permissão — apenas exigem coragem. E, naquele instante, entre o medo e o desejo, eu escolhi entrar.

29 outubro 2010

Promete não me esquecer?

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Para aquele par de olhos que me fitava — misteriosos, distantes — eu era apenas mais alguém na multidão. Mas, para o coração que batia descompassado dentro de mim, ele já era tudo. Havia algo inexplicável ali: uma força silenciosa que me puxava para perto, enquanto ele, ao contrário, parecia querer distância.

Entre vozes, música e desordem, o mundo se dissolvia. Restavam apenas ele e o som insistente do meu próprio coração. Havia algo naquele olhar que me tirava o ar e prendia minha atenção, como se me chamasse — mas ele não parecia sentir nada. O que eu esperava? Era um estranho. E, ainda assim, havia em mim a estranha certeza de que eu já o conhecia.

“Eu conhecia bem aquele pôr do sol… mas hoje ele está diferente.” Mais intenso, mais vivo — quase irreal. Tão perfeito quanto o rosto à minha frente.
— Eu te amo — ela sussurrou, como quem revela um segredo antigo.
— Eu te amo — respondi, sem hesitar.
E, naquele instante, tudo fazia sentido. Ela era minha, como meu coração sempre foi dela. Não havia dúvida, não havia distância. Aquilo não era um sonho — eu sabia. Sentia com uma certeza absoluta, crescente, inevitável. Eu era, enfim, o homem mais feliz do mundo."

De malas prontas

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Malas do lado de fora. O quarto, vazio. Eu perdia tudo aos poucos — ou talvez estivesse apenas aprendendo a deixar. As estantes na parede à esquerda, onde antes repousavam meus livros, agora apenas pendiam tortas, quase cedendo. As janelas ainda guardavam as marcas de caneta, vestígios de uma infância inquieta — cada risco, uma história. Lembra dos papéis esquecidos no fundo do guarda-roupa, quando entrei ali pela primeira vez? Já não estavam mais lá. E, ainda assim, foram eles que deram início a tudo. O chão, frio e brilhante, parecia intacto, como no dia em que foi limpo pela primeira vez. Já as paredes… essas carregavam o peso do tempo: manchadas, vivas, cheias de memórias que insistiam em permanecer.
  

Fazia um ano — embora parecesse um mês. E agora, de algum modo, parecia para sempre. Havia tanto que eu temia esquecer: momentos, detalhes, pedaços de mim. Meus escritos, guardados na pasta vermelha sob a televisão. Os bichos de pelúcia, ainda espalhados, resistindo ao tempo, como se recusassem o fim da infância. O abajur em forma de desejo animado, que iluminava minhas madrugadas insones.

Tudo aquilo era mais que um quarto. Era a minha história. Mas partir também carregava uma promessa. Havia, naquele adeus, o início silencioso de algo novo — uma vida inteira esperando para ser escrita em outro lugar. E, no fim, percebi: o que eu levava dentro daquelas malas… era eu.

Subterfúgio

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Não entendo a vida — na verdade, não entendo nada. Por que assim e não de outro jeito? Por que tudo acontece exatamente como acontece? Sinto que não sei viver, porque não encontro um motivo claro para isso. E, afinal, quem já encontrou?

Já não há mais sonhos que me sustentem. A esperança se dissolveu em silêncio. Ainda sinto amor, mas não há a quem entregá-lo. Ele permanece aqui, guardado, sem destino. É como se eu estivesse deslocada de mim mesma — em outro lugar, longe de onde realmente existo. Não me encontro no agora, nem consigo imaginar o amanhã. Tudo parece suspenso, como se o tempo tivesse deixado de passar.

23 outubro 2010

A casa do lago

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          Na minha doce infância — aquela que os dias já não devolvem mais — existe uma lembrança que permanece inteira, como se o tempo tivesse esquecido de tocá-la: o lago em frente à minha casa. Ele ainda está lá. Mais antigo, mais silencioso, talvez um pouco cansado… mas ainda guarda, nas suas águas, pedaços de quem eu fui. Eu costumava ir lá todas as tarde, principalmente sob o pôr-do-sol. Havia um ritual quase sagrado nisso. Eu me deitava no gramado amplo, que eu mesma insistia em cuidar com um zelo infantil — arrancando folhas secas, alisando a terra, acreditando, com toda a certeza do mundo, que aquilo fazia o verde ficar mais vivo.
          O lago refletia o céu como se fosse um espelho que sonhava. As árvores ao redor, poucas, mas imponentes, carregavam folhas de cores diferentes — verdes que respiravam, amarelos que se despediam, marrons que guardavam histórias. Quando o sol começava a se inclinar, tudo se transformava. As cores dançavam na água, e eu… eu me perdia ali. Ficava hipnotizada. As horas passavam sem pedir licença, e eu não sentia falta de nada. Ali, naquele pequeno pedaço de mundo, eu não precisava ser mais do que era. Era um refúgio — mas mais do que isso, era o único lugar onde eu me permitia sorrir sem medo.


          Eu gostava, particularmente, dos peixes. Eram pequenos, inquietos, quase mágicos. Pulavam de repente, como se também quisessem tocar o céu que o lago refletia. Eu pedia ao papai que me ajudasse a cuidar deles. Ele sempre dizia que sim, mesmo quando eu não sabia exatamente o que “cuidar” significava.
          — Eles sabem que você está aqui — ele dizia.
          E eu acreditava. Havia peixes dourados, que pareciam feitos de sol. Outros cinzentos, discretos como pensamentos. Alguns branquinhos, quase invisíveis, como segredos. Para mim, cada um tinha uma história, um nome, um motivo para existir.
          Quando saltavam, a água respingava em mim — e eu chorava de felicidade. Hoje, quando lembro, ainda choro. Mas é diferente. É um choro que sorri, porque carrega dentro de si a memória de nós dois ali, naquele fim de tarde que nunca parecia acabar.
          Aos sete anos, aquele era o meu mundo inteiro. Até que vinha a voz da minha mãe, que atravessava o ar, firme, inevitável. Era a hora de voltar. A hora em que o sonho era interrompido, quase sempre no melhor momento. Foi assim, sobretudo, depois que papai partiu — quando o lago passou a ser também ausência.
          Eu me levantava devagar, como quem tenta prolongar o instante. Caminhava de volta para casa com uma paz silenciosa no peito… e já com saudade. Saudade daquele pequeno universo onde tudo ainda fazia sentido.
          À noite, o lago mudava. Perdia o brilho, o encanto, a voz. Eu ficava aqui. Eles, lá. Como se existisse uma distância que não era de espaço, mas de presença.
          Mesmo assim, naquela época, eu não dizia que o mundo era feio. Pelo contrário — ele sorria para mim cada vez que eu cantava. Eu vivia à beira da felicidade, sem saber dar nome a ela. Era como estar prestes a tocar algo muito precioso, mas sem querer assustá-lo. Eu não contava a ninguém. Nem mesmo aos peixes. Tinha medo de que, se dissesse em voz alta, aquilo desaparecesse. Como quando eu disse "Papai, não vai embora".

Lágrimas

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Estava tudo parado. Quieto demais. Calmo de um jeito que não era natural — como se o mundo tivesse prendido a respiração e esquecido de soltar. E, no meio desse silêncio, ele.

Passou um dia, depois uma semana, depois um mês — e ele continuava lá, impregnando meus pensamentos como uma marca que não desbota. Eu tentei, de verdade. Procurei distrações, inventei rotas de fuga, forcei esquecimentos. Faltou coragem, talvez, ou sobrou sentimento. Não deu tempo de apagar e eu não consegui controlar o que sentia — e, no fim, foram os sentimentos que me tomaram pela mão e decidiram por mim.

Havia um recurso que sempre funcionava: chorar. As lágrimas eram antigas conhecidas. Fiéis. Organizavam o caos, aliviavam o peso, limpavam o que doía. Eu confiava nelas. Mas, dessa vez, foi diferente. Quanto mais eu chorava, mais parecia afundar. Como se cada lágrima fosse um passo a mais dentro de mim — num lugar onde eu não sabia voltar.

Pensar nunca ajudou muito. Pensar só ampliava tudo. E chorar… chorar começou a revelar. Eu chorava muito. Eram riachos que nasciam direto do peito, correndo sem direção, levando pedaços meus pelo caminho. E, no meio de um desses choros, sem aviso, sem explicação clara, algo mudou. Não foi um alívio imediato. Foi mais sutil. Como uma fresta de luz entrando num quarto escuro. 

Era noite. Eu estava deitada, encarando o teto como quem espera respostas que não vêm. Levantava sem motivo, caminhava pela casa em silêncio, como se procurasse alguma coisa que não tinha nome. E então chorava — daquele jeito descontrolado, sem medida, sem tentativa de esconder. Até que o telefone tocou. O som cortou a madrugada. Demorei um segundo para atender, como se ainda estivesse decidindo se queria voltar para o mundo. Mas atendi.

— Vamos. Levanta dessa cama. Vamos pra casa.

Era ela. Uma amiga que, há dias, insistia em me puxar de volta. Que me emprestava vida quando eu não tinha nenhuma. Que acreditava em mim quando eu já não conseguia. E, mais uma vez, ela fez isso. Não pediu explicações. Não cobrou força. Só estendeu a mão — mesmo estando do outro lado da linha. E, de algum jeito, aquilo bastou, porque, às vezes, a gente não precisa de respostas, apenas precisa de alguém que nos lembre que ainda existe um caminho.

Já em casa — ou talvez em mim mesma, pela primeira vez em muito tempo — o dia começou a clarear e não parou mais. A luz foi entrando devagar, ocupando os espaços que antes eram só silêncio e dor. E, no meio dessa mudança quase imperceptível, eu percebi: ele ainda estava lá, mas já não era tudo. Pela primeira vez, havia mais do que ele dentro de mim.

22 outubro 2010

Amor infinito

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Ainda não sei exatamente o que me levou a uma mentira tão grande.

Na verdade, sei. Foi a ilusão. A ilusão que eu mesma construí naquele instante — a ideia insistente de que poderíamos voltar a ser o que fomos. E melhor. Como se o tempo fosse maleável, como se o passado aceitasse ser reescrito sem custo. Mas não era isso. Era mais como sentir o chão se abrir sob os pés. Um vazio súbito, desconhecido. Eu nunca tinha experimentado algo assim antes — aquela mistura de vertigem e negação, como se tudo estivesse desmoronando enquanto eu fingia estar de pé.

Eu nunca fui de me calar. Sempre fui de falar, de expor, de preencher o silêncio com palavras — às vezes seguras, às vezes trêmulas, mas sempre presentes. Falar era o meu jeito de existir. E, junto com isso, vinha o impulso. Eu agia antes de entender. Sentia antes de aceitar. E, quase sempre, me iludia.


O difícil nunca foi sentir. O difícil era explicar por quê. Naquele momento, porém, havia algo diferente. Minha convicção era tão grande que quase parecia verdade. Mas não era força — era só ilusão ocupando todo o espaço. O impulso, esse sim, eu tinha esquecido. Restava apenas a imagem de nós dois, reconstruída dentro da minha cabeça, intacta, perfeita, intocável.

Lá, tudo fazia sentido. Aqui, nada. Às vezes, a gente mente por necessidade. Por medo. Por não saber lidar com o que é real. Eu já tinha mentido antes — para os outros, para mim mesma. Mas nunca com tanta intensidade. Nunca com tanto peso. E, pela primeira vez, me arrependi de verdade. Desejei poder voltar atrás e engolir cada palavra.

— Você não vai me fazer falta.

Foi o que eu disse. Mas, dentro de mim, a verdade gritava outra coisa. Eu dizia, em silêncio, que nunca iria esquecê-lo. Que meu corpo ainda o reconhecia, que meus braços sentiam falta do lugar exato onde ele cabia. Que o tempo, sem ele, se tornava lento demais. Que o que eu sentia não cabia em despedidas.

Sim, ele faria falta. Já estava fazendo. E, na imagem que eu insistia em guardar — nós dois ainda existíamos. Próximos, inteiros, abraçados como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo não tivesse mudado. Mas tinha. E, no fundo, eu sabia. A minha mentira não era para ele. Era a última tentativa de não admitir que eu já estava sozinha.

19 outubro 2010

Se...

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Se valer a pena, eu vou —
sem mapa, sem medo, sem volta.

Se for longo o caminho, eu fico,
aprendo o tempo das coisas.

Se for demais, eu atravesso,
com o peso inteiro no peito.

Se existir, eu me entrego,
inteira, sem guardar metade.

Se a sorte vier, eu encontro
o exato lugar de estar.

Se um coração precisar, eu dou
o pouco e o muito de mim.

E, se doer um pouco menos…
quem sabe, então, seja perfeito.

Talvez um príncipe...

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“Não sei, até hoje não sei se o príncipe era um deles. Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais. Eu dava um cavalo branco para ele, uma espada, dava um castelo e monstros para ele matar, dava todas essas coisas e mais as que ele pedisse. Fazia com areia, com sal, com as folhas dos coqueiros, com as cascas dos cocos, até com a minha carne. Eu construía um cavalo branco para aquele príncipe. Mas ele não queria, acho que ele não queria, e eu não tive tempo de dizer que quando a gente precisa que alguém fique, a gente constrói qualquer coisa, até um castelo.”

(Caio Fernando Abreu)

Folhas em branco

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Era o meu maior medo: uma morte que não vinha do corpo, mas de dentro. Prematura, silenciosa, quase imperceptível — dessas que ninguém anuncia, mas que, quando você percebe, já aconteceu.

Eu ainda sentia tudo com uma clareza quase cruel. Cada emoção vinha inteira, nítida, incontestável. Mas, paradoxalmente, já não conseguia enxergar o futuro. Como se sentir demais tivesse apagado a direção. Como se, ao mesmo tempo em que eu tinha certeza do que havia dentro de mim, tivesse perdido completamente o que vinha depois. E eu sabia por quê.

Eu tinha destruído. Não de uma vez só, não com um gesto grandioso. Foi aos poucos. Em pequenas desistências, em silêncios acumulados, em escolhas que pareciam inofensivas. Quando percebi, já não havia volta.

Meu sonho? Se foi. Escapou junto com aquelas folhas de papel em branco que um dia me chamavam. Antes, elas eram promessa. Eram possibilidade. Hoje, eram só ausência — um vazio limpo demais, quieto demais. Meu talento? Um dia existiu. Eu sei que existiu. Mas deixei escapar. Não por falta de capacidade, mas por falta de coragem de continuar. E, no lugar dele, ficou outra vida. Uma que não era exatamente minha, mas que eu passei a habitar como quem aceita um destino que não escolheu.

Entre chorar e desistir, mal havia espaço para existir. Eu respirava, só isso. Inspirava e expirava como quem cumpre uma tarefa automática, enquanto tentava, com o pouco de lucidez que restava, encontrar uma saída. Mas tudo parecia deslocado. As coisas já não estavam onde deveriam estar. Nem fora, nem dentro de mim. Nada encaixava.

Os finos traços da minha imaginação — aqueles que antes desenhavam mundos inteiros, histórias, sentidos — desapareceram. E o pior não era a ausência deles. Era o silêncio que ficou no lugar. Porque, antes, mesmo na dúvida, havia movimento. Havia criação. Havia vida. Agora, não.

Minha vida, que um dia se organizava inteira naquelas palavras que eu escrevia — tortas, intensas, vivas — se perdeu. Não foi arrancada. Foi se desfazendo, linha por linha, até que eu já não soubesse mais por onde começar de novo. E talvez esse fosse o verdadeiro medo: não o de perder tudo, mas o de não reconhecer mais nada quando tentasse voltar.

Porto seguro

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— Aonde você for, eu te seguirei. Serei teu abrigo quando o mundo pesar, teu ombro quando faltar chão. Estarei contigo — ao teu lado ou no silêncio dos teus pensamentos, onde ninguém mais alcança. Vou rir das tuas alegrias, chorar das tuas dores e atravessar contigo tudo aquilo que vier, sem medir distância ou tempo. Ouvirei cada palavra tua como quem guarda um segredo. Vou me emocionar com tuas histórias, sentir contigo o que for preciso sentir. Não para tomar teu lugar, mas para que nunca precises enfrentar nada sozinho. Eu te entenderei — mesmo quando nem tu souberes te explicar. E, quando o caos vier, serei calma. Quando o medo falar mais alto, serei voz firme. Quando as lembranças doerem, serei o cuidado que as suaviza.


Se precisares de lágrimas, chorarei contigo.
Se precisares esquecer, serei a leveza que apaga o que pesa.
Se precisares de um abraço, serei o lugar onde teu cansaço descansa.

Darei a ti carinho nos dias brandos e força nos dias difíceis. Não posso tirar de ti todas as preocupações, mas prometo não te deixar carregá-las sozinho.

Quando precisares de segurança, serei abrigo.
Quando precisares de alguém, serei presença.
Quando precisares de um irmão, estarei ao teu lado — mão estendida, firme, sem pressa de soltar.

Não tenho o poder de curar tudo, mas ficarei enquanto dói. Enquanto não passar. Enquanto for preciso. E, se um dia tiveres que ir embora… estarei no porto e te alcançarei à tempo de dizer "até logo" com tudo o que não cabe em palavras. E mesmo que o tempo nos leve para longe, mesmo que os anos se empilhem em silêncio, mesmo que o mundo mude de forma incontável, eu jamais te direi adeus.

Amizade

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- Foi engraçado.
- O que ele fez?
- Sentou atrás de mim e puxou meu cabelo.
- E o que você fez?
- Aí, chutei a perna dele. Com força.
Dando gargalhadas, a amiga finalizou:
- Ah, meu Deus, você gosta dele!

Cartas na mesa

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— Você está blefando.
— Prefere arriscar?

Eu estava. Blefando como quem tenta ganhar tempo, como quem aposta mais no silêncio do outro do que nas próprias cartas. Só não imaginei que ele fosse acreditar tão fácil. Ele sempre foi assim: seguro demais de si. Falava com uma calma que parecia verdade, mesmo quando não era. Mas havia algo que eu sabia — algo que ainda me dava vantagem. Ele não sabia mentir. Ou, pelo menos, não comigo.


— Então... — ele inclinou levemente a cabeça, os olhos atentos — mostre-me suas cartas.

O desafio veio suave, quase brincando. Mas eu conhecia aquele tom. Ele sabia exatamente onde tocar. E tocou. Porque eu não tinha cartas. Nunca tive. Minha estratégia sempre foi essa: provocar, empurrar, esperar que ele cedesse primeiro.

Mas, dessa vez, ele não cedeu. Ele me olhava como quem já conhecia o final da história. Como quem reconhece cada movimento antes mesmo de ele acontecer. E foi aí que entendi.

Ele tinha me lido por inteiro. Fiquei surpresa — não por perder o jogo, mas por perceber que, apesar de tudo, ele ainda me conhecia.

18 outubro 2010

De olhos vendados

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E se eu fosse cega?

Nunca me imaginei sem nada. Não desse jeito. Perder tudo de uma vez — a lucidez, o mundo, a forma como as coisas se revelam diante de mim. Perder o sol, o mar, as estrelas. E os sorrisos… ah, os sorrisos nos rostos que eu reconheço antes mesmo de pensar. Perdê-los também. E então, desaparecer.

Fechei os olhos. Foi um gesto simples, mas o mundo se desfez inteiro. Tentei lembrar de tudo o que eu deixaria para trás. Coisas que, até segundos antes, pareciam pequenas — sem importância. De repente, doeram. Vieram como saudade antecipada, como despedida sem aviso. Curiosamente, as mais essenciais passaram despercebidas.


O ar faltou. Meu corpo reagiu antes da razão. Senti um aperto seco no peito, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro de mim. E ali, naquele escuro voluntário, eu entendi: era medo. Um medo cru, primitivo. O horror de não abrir os olhos nunca mais.

Abri-os imediatamente. A luz voltou, mas não trouxe alívio completo. Havia um resquício — uma sombra interna, persistente. Fiquei com medo de fechar os olhos de novo. Como se, na próxima vez, o escuro não fosse escolha.

E, no entanto, mesmo de olhos abertos, eu ainda perco. Há momentos em que a visão falha. Não por ausência de luz, mas por excesso de tudo. Fragilidade, angústia, cansaço. Primeiro, tudo fica turvo, como se o mundo estivesse se desfazendo nas bordas. Depois, escurece. Um preto denso, silencioso.

Resta o corpo. Resta o vento. Resta eu, tentando me agarrar a algo que não escapa pelos olhos. É nesses instantes que eu percebo o valor daquilo que sempre esteve ali — discreto, constante, quase invisível de tão presente. Ver. Simplesmente ver.

Mas essa consciência não dura. Em algum ponto, eu esqueço de novo. Volto à distração, à negligência, à falsa certeza de permanência. E então tudo recomeça como um ciclo. Como um aviso. Me dou conta de quão frágil a realidade sempre foi.

“Acho que perdi a sanidade; tenho saudade dos contos de fada...”

Talvez porque neles, ao menos, quando a escuridão chega… alguém sempre acende a luz.

"Acho que perdi a sanidade. Tenho saudade dos contos de fada..."

17 outubro 2010

Fogos de artifício

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Sim, ele estava sorrindo. Um sorriso aberto, quase desajeitado — desses que escapam antes que a gente consiga disfarçar. Ele sentia os próprios músculos do rosto como há muito não sentia, surpreso consigo mesmo, como se tivesse esquecido que ainda era capaz disso. Mas não havia tempo para se analisar.

Ela ocupava tudo.

Nunca tinha visto alguém assim. Não era só a beleza — embora ela fosse inegável, quase desconcertante. Era algo além, algo que não cabia em explicação simples. Um brilho, um jeito, uma presença que puxava o olhar e não devolvia.

Quando ela sorria, era como fogos de artifício: algo que explodia de repente, iluminava tudo ao redor e, por um instante, fazia o mundo inteiro parar só para assistir.

Ele tentou reparar nos detalhes, como se pudesse, assim, entendê-la melhor. Os cabelos — longos, lisos, organizados demais para parecerem perfeitos, e ainda assim caindo com uma leve desordem sobre os ombros. Os olhos — profundos, indecifráveis. Ele não conseguia dizer a cor, e isso o intrigava mais do que qualquer certeza.


Mas era o sorriso o que o prendia. Havia nele uma leveza rara, quase impossível. Como se aquela boca nunca tivesse aprendido o peso da dor. Como se fosse feita apenas de ternura e começo. Um sorriso que não só iluminava — aquecia.

E, sem perceber, ele se aqueceu ali. Como se, naquele instante, tudo o que havia nele — o cansaço, as ausências, os silêncios — encontrasse descanso. Ele não sabia explicar. Só sabia que, ao olhar para ela, algo dentro dele acendia. E, por um momento, teve a estranha sensação de que não era ele quem a observava... mas ela quem, em silêncio, reacendia a luz do mundo inteiro.

"And you have the most amazing smile"
(The Maine)

Depois de você

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Eu estava lá para ver o sol nascer quando soube que você já não estava. A casa te guardava apenas em ausências: o armário vazio, o silêncio no corredor, o espaço vazio na estante — como se ainda tentasse se acostumar com a falta do seu corpo. Você levou as roupas, os gestos, os hábitos. Deixou um bilhete. Desculpas, despedidas, palavras cuidadosamente melancólicas. Clichês que eu reconheci de imediato, como quem relê uma história cujo fim já conhece.

Um abraço? Um beijo final? Nada. Fiquei esperando — não por você, talvez, mas por aquilo que não dito. 


Sentada ali, na praia, enquanto o mundo recomeçava sem pedir licença, o mar estava inquieto, respirando em ondas curtas e insistentes. À minha frente, o céu se incendiava lentamente, tingindo-se de um laranja profundo, quase ardente. Era bonito demais para combinar com o vazio.

Pensei em você. Onde estaria agora? Sentiria saudade? Eu sabia que não. Arrependimento? Talvez nem isso. Perguntas que já nasciam respondidas, mas que eu insistia em fazer — como quem tateia uma ferida só para confirmar que ainda dói.

E doía, mas, de um jeito estranho... não me consumia. Havia em mim uma calma inesperada. Frágil, é verdade, mas presente. Um fio fino de paz atravessando o peito, como se, apesar de tudo, eu ainda estivesse inteira. Respirando.

Já não me importava com o armário vazio. Nem com as fotos retiradas dos porta-retratos, empilhadas sem cuidado. Nem com o seu lado da cama — antes desfeito, agora liso, intocado, como no começo de tudo. Talvez porque eu finalmente entendesse: o vazio também é um começo. E, um dia, tudo isso — cada ausência, cada silêncio — encontraria outra forma de existir dentro de mim. E, de algum jeito, seria preenchido de novo.

O dia amanheceu e o mar estava incrivelmente quieto de novo...

16 outubro 2010

Adorável insignificância

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Uma vez por ano — e, quando digo uma, quero dizer várias — eu me lembro do meu tamanho: ínfimo. Não só eu; todos, de certo modo. Mas, entre todos, eu me sinto ainda menor. Diante do que acontece no mundo, do que se move, do que transforma, eu me pergunto: o que eu fiz? E o silêncio responde: nada.

Já perdi a conta das vezes em que me levantei decidida, erguendo a cabeça como quem finalmente entendeu tudo, prometendo a mim mesma que mudaria, que encontraria um caminho, um sentido, qualquer coisa que me arrancasse desse lugar e falhei.

Fui atrás de algo que nem sabia nomear. Procurei em lugares vazios, em ideias incompletas, em tentativas que nasciam cansadas. E tudo o que encontrei foi frustração — repetida, insistente, quase familiar. Chorei muitas vezes. Sem motivo claro, ou talvez com motivos demais para caberem em palavras. Só chorei. Como se as lágrimas fossem a única forma de existir quando nada mais fazia sentido.

E a culpa… a culpa vinha sempre. Pesada, implacável. Tirava de mim qualquer resquício de paz, como se quisesse me ensinar algo à força. Como se dissesse: “olhe para o que você fez, ou deixou de fazer.” Mas meus olhos estavam turvos. Eu não via.

Caí muitas vezes. E, em algumas delas, minhas pernas simplesmente se recusaram a me erguer. Não por fraqueza — mas por peso. Um peso que não vinha de fora, mas de tudo aquilo que eu carregava sem perceber: erros, expectativas, promessas quebradas.


Eu me tornei pesada demais para mim mesma. E, ainda assim, fico me perguntando: aprendi? Não sei. Às vezes, penso que não. Que continuo presa no mesmo ponto, repetindo os mesmos ciclos, tropeçando nas mesmas falhas. E, em momentos mais duros, acredito que talvez eu nunca aprenda. Que talvez eu seja isso: pequena, falha, insignificante.

E, por mais estranho que pareça admitir... há dias em que essa insignificância veste em mim como algo conhecido. Quase confortável. O dom da insignificância combina bem comigo.

13 outubro 2010

Rabiscos

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Uma tinta escura como a noite repousava ao lado de uma folha em branco, estendida sobre a mesa como um convite — ou um desafio. Minha vontade era simples e imensa ao mesmo tempo: preencher aquele vazio. Riscar histórias belas, ou deixar escorrer pensamentos tristes. Talvez uma poesia. Talvez um desenho. Ou, quem sabe, apenas manchar o papel com palavras sem rumo, soltas, sem compromisso com o sentido.

Rabiscar. Me deixar levar.

Havia tanto dentro de mim pedindo para sair — coisas que eu nunca disse, que talvez nunca tenha tido coragem nem de pensar por inteiro. Ideias que chegavam como enxurrada, disputando espaço, pedindo forma. Eu podia escrever mil coisas naquelas linhas.

Uma história fantástica? A história da minha vida? Mas por onde começar?

Foi então que as palavras vieram. Desorganizadas, desobedientes — vieram de uma vez, como se já existissem antes de mim. Guiaram minha mão até o papel, e eu as segui sem questionar. Mas não era uma única história. Era tudo ao mesmo tempo.

Eu escrevi o céu como eu o via. Desenhei estrelas com palavras, deixei o mar escorrer entre as linhas, inventei rostos, sentimentos, fragmentos de existência. Qualquer coisa que surgia, eu soltava. Experimentava. Não segurava. Era caótico. Havia mais riscos do que formas, mais impulsos do que estrutura. Parecia, à primeira vista, um desenho de criança — desordenado, livre, sem regras. Mas havia verdade ali. E, talvez por isso, havia beleza.

No fim, não era sobre perfeição. Nem sobre fazer sentido. Era sobre finalmente deixar existir.

11 outubro 2010

Sussurros

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— Você sente?
— Sinto.
— Muito?
— Mais do que sei explicar.
— O tempo todo?
— O dia inteiro… até quando tento esquecer.
— E como é?
— Como tentar segurar algo que não cabe nas mãos.
— Então é forte assim?
— É.
— Tem certeza?
— Tenho.
— E se não for?
— Eu reconheceria… isso não é dúvida.
— E se você se arrepender?
— Não vou.
— Promete?
— Prometo.
— Então diz.
— Aqui?
— Agora. Em alto e bom som. Deixa o mundo ouvir.
— ...
— Diz.
Eu te amo.
— Por que sussurrou?
— Porque algumas coisas são grandes demais para o mundo... e pequenas o suficiente para caber só entre nós.

08 outubro 2010

Metamorfose ambulante

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Amanhã já não serei a mesma. Serei um corpo atravessado pelo que ficou, pedindo — ou talvez implorando — à minha alma mais alguns dias. Onde ela estará quando eu acordar? Em que parte de mim terá se escondido? A noite virou manhã sem pedir licença. O dia escorreu em tarde. Nuvens novas ocuparam o céu, que mudou de cor como quem troca de pele. E, sem perceber, eu também. Quem diria: uma nova versão de mim, nascida sem cerimônia. Uma metamorfose discreta, quase silenciosa — não só minha, mas da vida que passei a habitar. Assumi outros gestos, decorei falas que não eram minhas, caminhei sob árvores que deixavam cair suas folhas sobre mim como se marcassem o tempo. O verão passou. E, com ele, levou alguém que eu fui. Dele, restam vestígios. Quase nada — e, ainda assim, o suficiente para doer quando lembro. 

Estará perdido? Não. Ele sempre volta, de algum modo, junto com cada novo dia. Escondido nas entrelinhas, nos hábitos, nos silêncios. E talvez, um dia, eu o procure de volta — não para ser de novo, mas para entender quem fui. O recomeço do começo. Não é que eu vá mudar tanto. A mudança não é ruptura — é reflexão. É o mesmo espelho, visto sob outra luz. Quando o dia nascer, estarei lá para ver o sol chegar outra vez — com outros olhos, outras emoções, outra forma de sentir o mesmo mundo.

E então vou entender: minha alma não mudou tanto assim. Só mudou o que ela aprendeu a carregar.

"Prefiro ser essa metamorfose ambulante..."
(Raul Seixas)

05 outubro 2010

Querido diário

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Tem uma noite bonita lá fora. O vento sopra com força, arrepiando meus braços, embora não faça frio. Tudo parecia comum — igual a tantas outras noites. E, ainda assim, havia algo diferente em mim.

Sei que é estranho aparecer assim, de repente, falando de banalidades, depois de tantos dias em silêncio. Eu tentei falar com você. Muitas vezes. Mas a coragem… não veio. E eu fiquei.

Fiquei nos dias em branco, acumulando palavras que não tiveram destino. Páginas abertas, intactas, como se esperassem por mim — e eu, por algo que nunca chegava.

Sinto culpa por isso.

Por cada linha não escrita, por cada pensamento que deixei escapar antes de ganhar forma. Eu quis, de verdade, preencher tudo. Contar cada detalhe, mesmo os que já perderam importância. Mas havia um medo estranho… o medo de que não funcionasse. De que, ao tentar escrever, você simplesmente não estivesse mais aqui.

Porque, às vezes, nem eu consigo entender o que me acontece. Preciso de tempo. De silêncio. De um intervalo entre sentir e conseguir dizer. E foi nesse intervalo que eu me perdi de você. Foram dias mudos. E, agora, quando finalmente volto, parece que já não há muito o que recuperar. A caneta hesita, como se também tivesse desaprendido. E eu nem posso culpá-la.

Senti sua falta. Mais do que isso — senti falta de mim. Porque você é o lugar onde tudo em mim encontra sentido. Onde as coisas se encaixam, peça por peça, mesmo quando chegam quebradas.

Eu não sabia como começar a explicar esse silêncio. E talvez ainda não saiba. Sinto que há mais em mim, preso, esperando coragem para existir. Mas, por agora, só consigo pedir: me perdoa. Não foi escolha. Nem sei como continuei respirando nesses dias em que não escrevi. Como se, sem essas linhas, eu fosse menos inteira.

Prometo não me ausentar assim de novo. Porque eu preciso disso — preciso de você, dessas palavras, desse espaço onde eu finalmente existo. Sem isso, eu deixo de ser quem sou.

03 outubro 2010

Entre anônimos

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“Lembra quando éramos só nós dois? Lembra quando você me prometeu os dias mais felizes da minha vida? E você cumpriu — de um jeito estranho, inteiro. Foram, de fato, os mais felizes. Mas há algo que dói: você está em todos eles e não está aqui, agora.

Você lembra quando disse que colocaria o meu nome como definição de amor? Quando eu pedi um sorriso e você me envolveu num abraço tão apertado que parecia querer me guardar para sempre? Lembra das promessas, ditas olhando nos olhos, como se fossem eternas? Das palavras antes do ‘bom dia’, antes mesmo do ‘boa noite’, como se eu fosse o primeiro e o último pensamento?

São tantas lembranças e eu nem consigo dizer todas. Porque lembrá-las é quase vivê-las de novo — e eu já não aguento.

Eu acreditei. Acreditei de um jeito inteiro, sem defesa. E agora dói perceber que talvez tenham sido só palavras. Ou pior: que não eram exatamente suas. Talvez fossem de alguém que existia em você naquela época — alguém que eu conheci e que já não está mais aí. Obrigada pelo anonimato. Foi melhor pra mim saber que eu não te conhecia.

 
Assinado,
um outro alguém."

(Des)acreditando

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(…)
— Você viu? Ela… ela existe. E todo mundo jurando que não.
— Eu vi. Mas ver não é acreditar. Pode ser truque. Ou só mais uma ilusão — o mundo anda cheio delas.
— Talvez… é meio absurdo mesmo. Mas, se for pensar, o mundo inteiro também é — e a gente acredita nele todos os dias.
— Absurdo não basta. Quem garante? Dá pra tocar? Segurar? Sentir na pele? Não. Então, pra mim, é só barulho bonito.
— É… talvez você tenha razão. Só que, por um segundo, eu quis acreditar. Quis pensar que não era besteira. Que dava pra sonhar e, ainda assim, ser real.
— E?
— E nada… — ele suspirou, deixando o olhar cair — acho que eu estava tentando me enganar. Magia não existe. Só achei, por um segundo, que talvez não fosse besteira pensar que ela existia, e que valia a pena acreditar. Sonhar e ser real, não ser só imaginação.
— Ou talvez… — ela murmurou — a gente é que desaprendeu a reconhecê-la.

Ela apenas sorri

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Ela é diferente — não por esforço, mas por natureza. Não atravessa a vida à toa. Há nela uma certeza silenciosa de propósito, como quem caminha sem se perder, mesmo quando não sabe exatamente o destino. Não se prende ao que virá; habita o agora com uma coragem tranquila, sem culpa, sem medo. Ela não corre atrás — permite que as coisas a encontrem. Confia no fluxo, no tempo, no que tem que ser. E, quando dizem “o que tiver que ser, será”, ela não repete: ela vive.

Não se guia pelo olhar dos outros. Escuta a própria voz, mesmo quando o mundo fala mais alto. E sorri — um sorriso leve, quase secreto — porque entende que ninguém a compreenderá por inteiro. E tudo bem. Há uma paz nisso. Ela não precisa ser decifrada para existir. É feliz de um jeito que não depende de explicação. Um tipo de felicidade que não faz alarde, mas permanece. E, talvez por isso, dure. Ela se basta. E, justamente por se bastar, nunca está vazia.

Florescendo

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Era pequena e clara, de uma doçura que lembrava mel recém-colhido. Uma beleza que amanheceu sem pedir licença — e, ao nascer, já contrariava o mundo. Espreguiçou-se com inocência, como quem descobre o próprio corpo pela primeira vez, e despertou.

Havia um perfume nela — não suave, mas envolvente. Quase proibido. Tinha algo de tóxico, de viciante, como se quem se aproximasse já não soubesse voltar.

Era delicada, sim, mas não fraca. Havia uma coragem silenciosa em sua fragilidade, uma espécie de confiança ingênua no desconhecido. Não sabia o que existia além, mas mesmo assim veio — leve, discreta, fiel ao que era. Como semente, já carregava graça. Nos primeiros ramos, parecia reconhecer o mundo, como se já pertencesse a ele antes mesmo de florescer. E então, floresceu.

Uma flor que parecia pedir amor — não por carência, mas por instinto. Tímida, genuína, inteira. Sua beleza não gritava; convidava. E, ainda assim, era impossível ignorá-la. Arrancava suspiros até daqueles que já haviam desistido de sentir. Não tinha espinhos. Não precisava. Era apenas isso — uma flor. E, ainda assim, era tudo. Uma linda flor, tímida e genuína, de uma beleza que arrancou suspiros até dos mais desapaixonados pela vida.


- Procuro pelo amor. Você saberia onde posso encontrá-lo?

01 outubro 2010

Velho porão

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Poeira, mofo e histórias. Era esse o cheiro que me recebia sempre que eu abria a porta do porão — um cheiro denso, quase vivo. Como se o tempo tivesse decidido morar ali, empilhado entre caixas tortas, móveis esquecidos e objetos que um dia foram essenciais.

Naquele quarto pequeno, cabia uma vida inteira. Minhas coisas não eram só coisas. Eram fragmentos de quem eu fui: risadas guardadas em fotografias, silêncios dobrados em roupas antigas, promessas esquecidas entre papéis amarelados. Tudo estava espalhado pelo chão, numa desordem que só fazia sentido para mim. Era bagunça, sim — mas uma bagunça cheia de significado.

Cada canto pulsava memória e eu costumava acreditar que elas nunca iriam embora. Que, de algum jeito, aqueles objetos preservariam cada detalhe — como se fossem testemunhas fiéis de tudo que vivi. Bastava descer até ali para me reencontrar, lembrar. Para sentir de novo. Era o meu arquivo secreto.

Mas, como tudo que é vivo, aquilo também mudou. Não sei dizer exatamente quando aconteceu. Talvez tenha sido aos poucos, como um desaparecimento discreto. Talvez tenha sido de uma vez, como um rompimento silencioso. Só sei que, um dia, entrei ali… e não reconheci mais nada. O porão estava vazio. Não apenas de objetos — mas de sentido.

O cheiro de coisa velha havia desaparecido. Não havia mais o mofo, nem a poeira que dançava na luz. Não havia mais aquele cheiro da memória. Em vez disso, havia um vazio limpo demais, seco demais. Um cheiro estranho... um cheiro de nada. E o nada pesa.

No lugar da antiga desordem, restaram apenas marcas. Vestígios quase invisíveis no chão, sombras onde antes havia caixas, um eco fraco de algo que já foi importante. Era como olhar para um retrato apagado — ainda reconhecível, mas sem vida. Percebi, então, algo que nunca quis admitir: as memórias também partem, mesmo as que juramos eternas. Não desaparecem por completo — mas deixam de ocupar espaço. Deixam de doer, de aquecer, de existir com a mesma força. E, quando vão, levam consigo um pedaço de nós.

O porão já não me devolvia quem eu fui. E talvez esse fosse o mais assustador de tudo: não era só o quarto que estava vazio.

O balanço

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Era uma garotinha de muitos detalhes. Guardava o mundo nos olhos e nos bolsos — folhas secas, pedrinhas curiosas, segredos que só ela entendia. Gostava de muitas coisas, mas, acima de tudo, amava a vida do jeito que ela vinha: simples, inesperada, inteira. Era feliz com o que cabia na palma da mão.

Os parques eram seu lugar preferido. Não precisava de mais nada. Ali havia tudo: o vento que bagunçava seus cabelos, o cheiro de terra molhada, o som das árvores conversando entre si. Ela corria, girava, inventava histórias. Sentia uma alegria leve, dessas que não precisam de motivo.

Mas o que mais a fazia voltar era ele. Um velho balanço. De correntes enferrujadas e madeira gasta, rangendo baixinho a cada movimento, como se contasse histórias antigas. Ficava sempre ali, no mesmo lugar, esperando — ou assim ela gostava de acreditar. E ela ia. Todos os dias, se pudesse.

Sentava-se com cuidado, segurava firme as correntes e começava a balançar. Para frente e para trás, como se cada impulso levasse seus pensamentos mais longe. E então falava. Contava sobre o dia, sobre sonhos que ainda não entendia, sobre medos pequenos que só pareciam grandes quando ficavam guardados.

Ria sozinha. Às vezes, chorava, mas nunca se sentia sozinha ali, porque ele escutava. Ou pelo menos era assim que ela sentia. Para ela, o balanço tinha vida. Era um amigo silencioso, paciente, que a levava e a trazia sem nunca soltá-la de verdade. Nunca interrompia, nunca julgava. Só acompanhava — no ritmo dela e isso bastava.

— Querido balanço… — dizia, enquanto ia mais alto — é tão bom poder contar com você.

O vento respondia, abraçando seu rosto. E ela sorria. Porque, no mundo dela, algumas coisas não precisam falar para serem entendidas.

Desafiando o amor

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Estavam felizes — de um jeito que nunca haviam experimentado. Era um sentimento raro, quase irreal na sua pureza. Um amor feito de presença e saudade ao mesmo tempo, de cuidado sem medida, de um tempo que parecia não existir quando estavam juntos.

Mas não era só leveza. Havia também os desencontros. Eles queriam a mesma coisa — isso sempre foi claro —, mas, por algum motivo que nunca souberam nomear, não conseguiam chegar lá juntos. Entre risos e promessas, surgiam lágrimas. E, mesmo nas discórdias, o amor continuava ali, firme, pulsando no peito de ambos, como se se recusasse a ir embora.

Era bonito e doloroso. Algo os afastava — não o sentimento, mas a possibilidade de vivê-lo plenamente. Como se existisse uma barreira invisível, persistente, que não cedia, não importava o quanto tentassem. O coração já não cabia dentro deles. Parecia prestes a transbordar, a se partir, só para liberar tudo aquilo que insistia em ficar preso: um amor doce… e, ao mesmo tempo, amargo.

Ainda assim, havia prazer em senti-lo. Em reconhecê-lo. Em saber que, apesar de tudo, era verdadeiro. Mas verdade, às vezes, não basta. Eles não foram fortes o suficiente para vencer o que quer que fosse que os colocava à prova. E, em vez de lutar contra, deixaram-se levar. Amaram como se o amanhã não existisse — com urgência, intensidade, entrega.

E, realmente, não existiu mesmo.
 

(Re)inventando © 2010

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