31 outubro 2010

Entre sinos e silêncio

Eu ouço os sinos tocarem. Os sinos da igreja ecoam até a varanda do meu quarto, atravessando o ar quente da tarde como um aviso que chega tarde demais. Àquela altura, a cerimônia já havia começado. Não havia mais nada que eu pudesse fazer — ou talvez houvesse, e era justamente isso que me assustava. Dali, eu via a igreja. Pequena à distância, imensa dentro de mim. Restava esperar. E esperar, descobri, também pode ser uma forma de desespero.

Eu ainda o amava. Mas, de algum modo, isso já não bastava. Meu estado de espírito me consumia. Cada respiração vinha pesada, arrastada, como se o ar tivesse se tornado espesso demais para atravessar meu peito. Deitei na rede da varanda, deixando o corpo balançar num ritmo lento, quase como se quisesse enganar o tempo. Eu esperava por algo — não sabia exatamente o quê. Juízo, talvez. Ou algum vestígio de felicidade que eu sabia ter deixado para trás.

O pior era pensar. Reviver cada detalhe, cada gesto, cada palavra não dita. Olhar para a igreja e imaginar o que acontecia lá dentro. E, principalmente, imaginá-lo. Entre promessas e olhares que não me pertenciam mais. Remoía, sonhava, chorava em silêncio. Sabia que mais tarde me culparia por isso — por abandonar o que ainda sentia tanto.


Eu a vi antes de entrar. Sentada naquela poltrona, cercada por mãos cuidadosas e olhares encantados. Mesmo à distância, reconheci cada traço — os mais marcantes, os que ficaram gravados em mim desde o primeiro instante. Ela estava linda. Intocável. E, ainda assim, era a mesma. O mesmo encanto sereno, a mesma presença que um dia foi minha casa.

Sim, eu ainda a amava. De um jeito que sei que nunca mais vou amar alguém. E lamento, todos os dias, a forma como tudo terminou — as falhas, os silêncios, os desencontros que nos trouxeram até aqui. Mas, naquele dia, a esperança — essa velha companheira — ainda sussurrava em mim. Fraca, quase inaudível, mas persistente. Foi ela que me fez levantar e caminhar até a igreja. Foi ela que guiou meus passos incertos, cambaleantes, em direção ao que um dia foi felicidade.

Desci as escadas como quem atravessa um limite invisível. A cada passo, os sinos pareciam mais altos, mais próximos, mais definitivos. O mundo ao redor seguia como se nada estivesse acontecendo — mas dentro de mim, tudo desmoronava e se reconstruía ao mesmo tempo.

Parei diante da igreja. As portas estavam abertas. A luz invadia o interior como um convite — ou um desafio. Por um instante, hesitei. Pensei em voltar. Em aceitar o silêncio, a ausência, o fim. Mas não voltei. Porque, apesar de tudo, eu não me arrependo do que fiz. Há amores que não pedem permissão — apenas exigem coragem. E, naquele instante, entre o medo e o desejo, eu escolhi entrar.

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