às
14:41
17 outubro 2010
Depois de você
Postado por -
Renata F.
Eu estava lá para ver o sol nascer quando soube que você já não estava. A casa te guardava apenas em ausências: o armário vazio, o silêncio no corredor, o espaço vazio na estante — como se ainda tentasse se acostumar com a falta do seu corpo. Você levou as roupas, os gestos, os hábitos. Deixou um bilhete. Desculpas, despedidas, palavras cuidadosamente melancólicas. Clichês que eu reconheci de imediato, como quem relê uma história cujo fim já conhece.
Um abraço? Um beijo final? Nada. Fiquei esperando — não por você, talvez, mas por aquilo que não dito.
Sentada ali, na praia, enquanto o mundo recomeçava sem pedir licença, o mar estava inquieto, respirando em ondas curtas e insistentes. À minha frente, o céu se incendiava lentamente, tingindo-se de um laranja profundo, quase ardente. Era bonito demais para combinar com o vazio.
Pensei em você. Onde estaria agora? Sentiria saudade? Eu sabia que não. Arrependimento? Talvez nem isso. Perguntas que já nasciam respondidas, mas que eu insistia em fazer — como quem tateia uma ferida só para confirmar que ainda dói.
E doía, mas, de um jeito estranho... não me consumia. Havia em mim uma calma inesperada. Frágil, é verdade, mas presente. Um fio fino de paz atravessando o peito, como se, apesar de tudo, eu ainda estivesse inteira. Respirando.
Já não me importava com o armário vazio. Nem com as fotos retiradas dos porta-retratos, empilhadas sem cuidado. Nem com o seu lado da cama — antes desfeito, agora liso, intocado, como no começo de tudo. Talvez porque eu finalmente entendesse: o vazio também é um começo. E, um dia, tudo isso — cada ausência, cada silêncio — encontraria outra forma de existir dentro de mim. E, de algum jeito, seria preenchido de novo.
O dia amanheceu e o mar estava incrivelmente quieto de novo...
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