01 outubro 2010

Velho porão

Poeira, mofo e histórias. Era esse o cheiro que me recebia sempre que eu abria a porta do porão — um cheiro denso, quase vivo. Como se o tempo tivesse decidido morar ali, empilhado entre caixas tortas, móveis esquecidos e objetos que um dia foram essenciais.

Naquele quarto pequeno, cabia uma vida inteira. Minhas coisas não eram só coisas. Eram fragmentos de quem eu fui: risadas guardadas em fotografias, silêncios dobrados em roupas antigas, promessas esquecidas entre papéis amarelados. Tudo estava espalhado pelo chão, numa desordem que só fazia sentido para mim. Era bagunça, sim — mas uma bagunça cheia de significado.

Cada canto pulsava memória e eu costumava acreditar que elas nunca iriam embora. Que, de algum jeito, aqueles objetos preservariam cada detalhe — como se fossem testemunhas fiéis de tudo que vivi. Bastava descer até ali para me reencontrar, lembrar. Para sentir de novo. Era o meu arquivo secreto.

Mas, como tudo que é vivo, aquilo também mudou. Não sei dizer exatamente quando aconteceu. Talvez tenha sido aos poucos, como um desaparecimento discreto. Talvez tenha sido de uma vez, como um rompimento silencioso. Só sei que, um dia, entrei ali… e não reconheci mais nada. O porão estava vazio. Não apenas de objetos — mas de sentido.

O cheiro de coisa velha havia desaparecido. Não havia mais o mofo, nem a poeira que dançava na luz. Não havia mais aquele cheiro da memória. Em vez disso, havia um vazio limpo demais, seco demais. Um cheiro estranho... um cheiro de nada. E o nada pesa.

No lugar da antiga desordem, restaram apenas marcas. Vestígios quase invisíveis no chão, sombras onde antes havia caixas, um eco fraco de algo que já foi importante. Era como olhar para um retrato apagado — ainda reconhecível, mas sem vida. Percebi, então, algo que nunca quis admitir: as memórias também partem, mesmo as que juramos eternas. Não desaparecem por completo — mas deixam de ocupar espaço. Deixam de doer, de aquecer, de existir com a mesma força. E, quando vão, levam consigo um pedaço de nós.

O porão já não me devolvia quem eu fui. E talvez esse fosse o mais assustador de tudo: não era só o quarto que estava vazio.

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