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22:38
01 outubro 2010
O balanço
Postado por -
Renata F.
Era uma garotinha de muitos detalhes. Guardava o mundo nos olhos e nos bolsos — folhas secas, pedrinhas curiosas, segredos que só ela entendia. Gostava de muitas coisas, mas, acima de tudo, amava a vida do jeito que ela vinha: simples, inesperada, inteira. Era feliz com o que cabia na palma da mão.
Os parques eram seu lugar preferido. Não precisava de mais nada. Ali havia tudo: o vento que bagunçava seus cabelos, o cheiro de terra molhada, o som das árvores conversando entre si. Ela corria, girava, inventava histórias. Sentia uma alegria leve, dessas que não precisam de motivo.
Mas o que mais a fazia voltar era ele. Um velho balanço. De correntes enferrujadas e madeira gasta, rangendo baixinho a cada movimento, como se contasse histórias antigas. Ficava sempre ali, no mesmo lugar, esperando — ou assim ela gostava de acreditar. E ela ia. Todos os dias, se pudesse.
Sentava-se com cuidado, segurava firme as correntes e começava a balançar. Para frente e para trás, como se cada impulso levasse seus pensamentos mais longe. E então falava. Contava sobre o dia, sobre sonhos que ainda não entendia, sobre medos pequenos que só pareciam grandes quando ficavam guardados.
Ria sozinha. Às vezes, chorava, mas nunca se sentia sozinha ali, porque ele escutava. Ou pelo menos era assim que ela sentia. Para ela, o balanço tinha vida. Era um amigo silencioso, paciente, que a levava e a trazia sem nunca soltá-la de verdade. Nunca interrompia, nunca julgava. Só acompanhava — no ritmo dela e isso bastava.
— Querido balanço… — dizia, enquanto ia mais alto — é tão bom poder contar com você.
O vento respondia, abraçando seu rosto. E ela sorria. Porque, no mundo dela, algumas coisas não precisam falar para serem entendidas.
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