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16:17
28 abril 2026
Despedida
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Renata F.
Confesso que não lembro como nossa amizade aconteceu. Um dia, entre contos de fada e brincadeiras, quando me dei conta, ela já estava lá — já era presença, dessas que parece que sempre esteve ali. Com o tempo, crescemos e a amizade também cresceu, tomando formas mais profundas — era algo que ocupava espaço demais dentro de mim. E justamente por isso que começou a doer quando vi que tinha mudado de forma e de tamanho. Percebi que nem sempre o que a gente sente encontra lugar no outro, e insistir, às vezes, é uma forma silenciosa de se perder.
Eu tentei ficar. Tentei ajustar o que sentia, fingir que cabia no mesmo lugar de antes. Mas alguns sentimentos não aceitam ser moldados. Eles ficam ali, insistindo, até que a gente precise encarar que não há mais saída.
E então eu fiz o que nunca imaginei fazer: fui embora. Não por falta de amor, mas porque continuar significava me machucar aos poucos, e também, de algum modo, me prender a algo que ela não podia devolver. Ir embora foi a única forma de preservar o que ainda restava de bonito, mesmo que à distância.
Hoje, quando penso em nossa amizade, não é a dor que fala mais alto. É a memória. É tudo o que foi real, tudo o que existiu de verdade. Algumas pessoas não ficam, mas deixam marcas tão profundas que continuam fazendo parte de quem a gente se torna. E, no fundo, eu sei: quando a amizade acabou, não apagou o que vivemos, mas manchou para sempre.
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15:51
Sob o pôr do sol
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Renata F.
O pôr do sol tem uma maneira silenciosa de ensinar. Ele não pede atenção, não faz alarde — apenas acontece, todos os dias, sempre nos lembrando de que até o fim pode ser bonito. A luz vai se despedindo devagar, pintando o céu com cores que não se repetem, como se o mundo quisesse deixar uma última impressão antes de escurecer. Não é atoa que é a minha hora favorita do dia.
A vida também se constrói nesses instantes de transição — quando algo termina sem fazer barulho, quando aprendemos a soltar sem entender completamente, quando percebemos que nem tudo foi feito para durar, mas tudo foi feito para significar, porque talvez viver seja isso: entender que há beleza mesmo no que se vai, que há cor mesmo no fim, que há sentido mesmo quando o dia já acabou.
E então, quando a última faixa de luz desaparece no horizonte, fica uma certeza suave — a de que, mesmo depois da escuridão, o sol sempre encontra um jeito de voltar e iluminar a vida de novo.
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15:28
A fotógrafa
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Renata F.
Ela aprendeu cedo que algumas coisas não cabem em palavras — por isso escolheu uma câmera. Desde pequena, carregava câmeras como quem carrega segredos. Primeiro uma simples, antes mesmo de saber o seu significado; depois outra melhor, tentando aprender a domar os botões; até chegar àquela que agora descansava firme entre suas mãos, já marcada por poeira, quedas e histórias.
Viajar era sonho e necessidade. Havia muito ainda por conhecer. Mas, no pouco que percorreu, viveu com intensidade suficiente para encher a memória de sua vida inteira. Já atravessara estradas esquecidas, dormira em ônibus, perdera-se de propósito em cidades que ninguém fazia questão de lembrar. Em cada lugar, buscava o mesmo: o instante que quase passa despercebido — o sorriso tímido de um desconhecido, a janela acesa no fim da rua, a chuva fina sobre telhados antigos. Mas o que mais a movia não era o belo evidente — era o fugaz.
Naquele pôr do sol, com o horizonte pintado em tons quentes, ajustou o foco. Não havia ninguém ali além dela e do vento. Ainda assim, sorriu. Naquela tarde de céu incendiado, como o da imagem que guardaria depois com cuidado, estava novamente sozinha, mas nunca vazia. Havia algo nos silêncios do mundo que só se revelava a quem sabia olhar e ela aprendeu, desde cedo.
Click. O som seco da câmera ecoou suave, como um coração confirmando que ainda bate. Para ela, cada foto era uma prova de existência. Não apenas do mundo, mas dela mesma. No fundo, temia desaparecer sem deixar rastro — como tantas histórias que se perdem. E assim, seguia, de montanhas a vielas, de desertos a cidades caóticas, sempre com a câmera como extensão do próprio olhar. Já chorou ao perder fotos. Já riu ao capturar o inesperado. Já voltou a lugares só para tentar refazer uma imagem — e descobriu que certas coisas simplesmente não se repetem.
Foi então que entendeu: sua aventura não era sobre fotografar o mundo, porque, no fim, não se trata de eternizar o momento — mas de senti-lo antes que passe. Porque algumas histórias não são feitas para serem contadas.
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06:57
Família
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Renata F.
Há um lugar em mim
que nunca foi habitado.
Não por falta de espaço,
mas por ausência de chegada.
Um quarto arrumado demais,
silencioso demais,
esperando passos que nunca ecoaram
no chão da minha infância.
Faltou o abraço que não pergunta,
a voz que não pesa,
o colo que não cobra retorno —
faltou o simples,
que para muitos é tudo.
E então cresci assim:
aprendendo a ser abrigo
sem nunca ter tido casa,
decorando a linguagem do afeto
como quem lê um livro
que nunca foi habitado.
Não por falta de espaço,
mas por ausência de chegada.
Um quarto arrumado demais,
silencioso demais,
esperando passos que nunca ecoaram
no chão da minha infância.
Faltou o abraço que não pergunta,
a voz que não pesa,
o colo que não cobra retorno —
faltou o simples,
que para muitos é tudo.
E então cresci assim:
aprendendo a ser abrigo
sem nunca ter tido casa,
decorando a linguagem do afeto
como quem lê um livro
escrito em outra língua.
Há dias em que o vazio
se estende como horizonte —
bonito de longe,
infinito por dentro,
intocável.
Saudade do que não vivi,
do que não teve nome,
do que nunca pôde ser lembrança,
mas sempre foi falta.
Ainda assim,
entre os cacos do que não veio,
eu invento raízes.
Planto cuidado onde houve silêncio,
construo laços onde houve ausência.
E, devagar,
como quem aprende a existir de novo,
vou me tornando aquilo
que um dia procurei:
um lugar onde o amor
não precisa pedir licença para ficar.
Há dias em que o vazio
se estende como horizonte —
bonito de longe,
infinito por dentro,
intocável.
Saudade do que não vivi,
do que não teve nome,
do que nunca pôde ser lembrança,
mas sempre foi falta.
Ainda assim,
entre os cacos do que não veio,
eu invento raízes.
Planto cuidado onde houve silêncio,
construo laços onde houve ausência.
E, devagar,
como quem aprende a existir de novo,
vou me tornando aquilo
que um dia procurei:
um lugar onde o amor
não precisa pedir licença para ficar.
às
18:13
27 abril 2026
Por um acaso
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Renata F.
Eles não combinaram de se encontrar. Nem sequer sabiam que estavam procurando um ao outro. Foi numa tarde comum, dessas que passam despercebidas. Ela entrou no lugar tentando fugir do calor — ou talvez de algo que nem sabia nomear. Ele já estava lá dentro, distraído, como quem espera o tempo passar sem fazer muito esforço.
Não houve música especial. Nem silêncio absoluto. Só o som cotidiano de coisas acontecendo. Ela procurou um lugar para sentar. Ele levantou os olhos por um segundo — desses segundos que não prometem nada — e voltou ao que estava fazendo. Mas algo ficou. Uma impressão leve, quase inexistente, como um pensamento que a gente esquece antes de terminar.
Minutos depois, por acaso (ou por aquelas coincidências que ninguém consegue explicar), eles dividiram o mesmo espaço. Próximos o suficiente para perceber a presença um do outro, distantes o bastante para fingir que não.
— Você também acha que esse lugar é mais cheio do que deveria? — ele disse, sem pensar muito.
Ela olhou, surpresa não pela pergunta, mas pela facilidade com que respondeu:
— Acho que as pessoas vêm pra cá quando não sabem pra onde ir.
Ele sorriu de leve. Não era sobre o lugar. Era sobre aquilo que, de algum jeito, os dois entenderam sem precisar explicar.
A conversa veio assim: despretensiosa. Sem grandes revelações, sem frases marcantes. Falaram de coisas pequenas — o clima, o tempo, lembranças vagas, opiniões meio soltas. Mas havia algo diferente: nenhum dos dois estava tentando impressionar. E isso, sem que percebessem, já era raro.
O tempo passou sem avisar. Quando viram, já tinham ultrapassado aquela linha invisível entre desconhecidos e algo mais difícil de definir.
— Engraçado — ela disse —, parece que eu já te conhecia.
Ele pensou por um instante.
— Talvez a gente só tenha demorado pra se encontrar.
Não foi uma declaração. Não naquele momento. Foi só uma frase, dessas que ficam no ar.
Quando se despediram, não houve promessas grandiosas. Nenhum “para sempre”, nenhum plano detalhado. Só um acordo simples de continuar — como se aquilo já fosse suficiente. E era.
Porque, às vezes, o amor não começa com intensidade. Começa com reconhecimento, com dois caminhos que se cruzam sem alarde, mas que, a partir dali, já não seguem exatamente sozinhos.
E foi assim que ela e ele se conheceram: sem perceber que, naquele instante comum, a vida deles tinha deixado de ser apenas deles.
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18:01
Um dia de chuva
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Renata F.
A chuva começou sem aviso, como se o céu tivesse decidido sentir demais de uma vez. Eu estava no meio da rua quando as primeiras gotas caíram — tímidas, quase educadas. Em segundos, viraram pressa. O asfalto escureceu, o mundo ficou borrado e as pessoas correram para qualquer abrigo disponível. Eu não corri. Fiquei ali.
No começo, foi só estranhamento. A roupa colando, o cabelo pesado, os sapatos reclamando a cada passo. Um incômodo comum, desses que a gente aprende a evitar. Mas, por algum motivo, naquele dia, eu não quis evitar nada.
Levantei o rosto. A água escorria pelos meus olhos, misturando visão e sensação. Não dava mais para separar o que eu via do que eu sentia. E, pela primeira vez em muito tempo, isso não me assustou. A cidade desacelerou ao meu redor, como se eu tivesse saído do ritmo dela. Os carros continuavam passando, as pessoas seguiam correndo, mas tudo parecia distante — como um filme sem som.
E ali, no meio da chuva, algo estranho aconteceu: eu parei de procurar.
Felicidade, eu sempre pensei, era alguma coisa que vinha depois. Depois de resolver tudo, depois de entender tudo, depois de me tornar alguém melhor, mais pronto, mais completo. Sempre um destino. Sempre mais adiante.
Mas a chuva não estava esperando nada. Ela simplesmente caía. Sem pedir licença, sem se explicar, sem prometer que faria sentido. E, talvez por isso, fez. Eu dei um passo. Depois outro. Sem rumo, sem pressa. Só andando, sentindo cada gota como se fosse uma resposta que eu nunca soube formular.
A água lavava tudo — não só a pele, mas o peso invisível que eu carregava sem perceber. As expectativas, as cobranças, as perguntas sem resposta. Tudo parecia escorrer junto, indo embora pelas ruas alagadas.
E então eu ri. Não foi um riso alto, nem bonito. Foi inesperado. Meio torto, meio livre. Um riso que não precisava de motivo — e talvez por isso fosse o mais verdadeiro de todos.
Naquele instante, entendi: felicidade não era algo que eu precisava alcançar. Era algo que acontecia quando eu parava de fugir.
A chuva continuava caindo, insistente, viva. E eu, ali no meio dela, finalmente não estava em outro lugar. Não estava no passado, nem no futuro. Eu estava ali, inteira. E, pela primeira vez, isso bastava.
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17:52
A tulipa e o jardim
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Renata F.
A tulipa nunca soube exatamente quando começou a pensar. Talvez tenha sido no dia em que percebeu que não era o jardim. Até então, sentia o vento como se fosse seu, a terra como se fosse seu corpo inteiro, a luz como algo que nascia dentro dela. Mas, numa manhã silenciosa, percebeu: havia limites. Suas pétalas terminavam. Seu caule não alcançava tudo. E, pela primeira vez, sentiu-se pequena.
— Jardim — chamou, com uma voz que não fazia som, mas ainda assim existia —, por que eu não sou você?
O jardim demorou a responder. Jardins não têm pressa.
— Você é — disse, por fim.
A tulipa se irritou, o que era raro, mas possível.
— Não sou. Eu termino aqui. Você continua.
O jardim sorriu, embora ninguém pudesse ver.
— Você termina onde aprende a olhar.
A tulipa não entendeu. E isso a incomodou mais do que qualquer vento forte.
Os dias passaram. A tulipa observava. Viu outras flores abrirem e fecharem, viu folhas caírem sem fazer barulho, viu a chuva chegar como quem pede licença e depois ir embora sem se despedir. Tudo parecia aceitar o que era, menos ela.
— Jardim — insistiu outra vez —, qual é o meu propósito?
O jardim demorou mais dessa vez. Não por não saber, mas porque certas respostas precisam amadurecer antes de serem ouvidas.
— Você não foi feita para ser o todo — disse. — Você foi feita para sentir o todo.
A tulipa ficou em silêncio. Pela primeira vez, não tentou responder.
Naquela noite, o vento veio mais suave. Ela sentiu cada movimento como se fosse uma conversa. A terra estava fria, mas acolhedora. A escuridão não era ausência — era descanso. E, sem perceber, algo mudou.
Ela parou de tentar ser o jardim. E começou a vivê-lo.
Com o tempo, suas pétalas se abriram mais do que nunca. Não por obrigação, mas por vontade. Ela não precisava alcançar tudo — bastava estar inteira onde estava. E então, num dia qualquer, percebeu algo curioso: quando o sol tocava suas pétalas, o jardim inteiro parecia mais bonito.
— Jardim… — disse, agora com calma —, eu acho que entendi.
— Diga então — respondeu o jardim.
— Eu não sou você… mas sem mim, você também não seria o mesmo.
O jardim não respondeu com palavras. Respondeu com o vento, com a luz, com a vida pulsando em cada canto. E a tulipa, finalmente, não precisava de mais respostas. Ela floresceu.
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