às
15:28
28 abril 2026
A fotógrafa
Postado por -
Renata F.
Ela aprendeu cedo que algumas coisas não cabem em palavras — por isso escolheu uma câmera. Desde pequena, carregava câmeras como quem carrega segredos. Primeiro uma simples, antes mesmo de saber o seu significado; depois outra melhor, tentando aprender a domar os botões; até chegar àquela que agora descansava firme entre suas mãos, já marcada por poeira, quedas e histórias.
Viajar era sonho e necessidade. Havia muito ainda por conhecer. Mas, no pouco que percorreu, viveu com intensidade suficiente para encher a memória de sua vida inteira. Já atravessara estradas esquecidas, dormira em ônibus, perdera-se de propósito em cidades que ninguém fazia questão de lembrar. Em cada lugar, buscava o mesmo: o instante que quase passa despercebido — o sorriso tímido de um desconhecido, a janela acesa no fim da rua, a chuva fina sobre telhados antigos. Mas o que mais a movia não era o belo evidente — era o fugaz.
Naquele pôr do sol, com o horizonte pintado em tons quentes, ajustou o foco. Não havia ninguém ali além dela e do vento. Ainda assim, sorriu. Naquela tarde de céu incendiado, como o da imagem que guardaria depois com cuidado, estava novamente sozinha, mas nunca vazia. Havia algo nos silêncios do mundo que só se revelava a quem sabia olhar e ela aprendeu, desde cedo.
Click. O som seco da câmera ecoou suave, como um coração confirmando que ainda bate. Para ela, cada foto era uma prova de existência. Não apenas do mundo, mas dela mesma. No fundo, temia desaparecer sem deixar rastro — como tantas histórias que se perdem. E assim, seguia, de montanhas a vielas, de desertos a cidades caóticas, sempre com a câmera como extensão do próprio olhar. Já chorou ao perder fotos. Já riu ao capturar o inesperado. Já voltou a lugares só para tentar refazer uma imagem — e descobriu que certas coisas simplesmente não se repetem.
Foi então que entendeu: sua aventura não era sobre fotografar o mundo, porque, no fim, não se trata de eternizar o momento — mas de senti-lo antes que passe. Porque algumas histórias não são feitas para serem contadas.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
.jpg)

0 recados:
Postar um comentário