28 abril 2026

Família

Há um lugar em mim
que nunca foi habitado.
Não por falta de espaço,
mas por ausência de chegada.

Um quarto arrumado demais,
silencioso demais,
esperando passos que nunca ecoaram
no chão da minha infância.

Faltou o abraço que não pergunta,
a voz que não pesa,
o colo que não cobra retorno —
faltou o simples,
que para muitos é tudo.

E então cresci assim:
aprendendo a ser abrigo
sem nunca ter tido casa,
decorando a linguagem do afeto
como quem lê um livro
escrito em outra língua.

Há dias em que o vazio
se estende como horizonte —
bonito de longe,
infinito por dentro,
intocável.

Saudade do que não vivi,
do que não teve nome,
do que nunca pôde ser lembrança,
mas sempre foi falta.

Ainda assim,
entre os cacos do que não veio,
eu invento raízes.
Planto cuidado onde houve silêncio,
construo laços onde houve ausência.

E, devagar,
como quem aprende a existir de novo,
vou me tornando aquilo
que um dia procurei:
um lugar onde o amor
não precisa pedir licença para ficar.

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