27 abril 2026

Um dia de chuva

A chuva começou sem aviso, como se o céu tivesse decidido sentir demais de uma vez. Eu estava no meio da rua quando as primeiras gotas caíram — tímidas, quase educadas. Em segundos, viraram pressa. O asfalto escureceu, o mundo ficou borrado e as pessoas correram para qualquer abrigo disponível. Eu não corri. Fiquei ali.

No começo, foi só estranhamento. A roupa colando, o cabelo pesado, os sapatos reclamando a cada passo. Um incômodo comum, desses que a gente aprende a evitar. Mas, por algum motivo, naquele dia, eu não quis evitar nada. 

Levantei o rosto. A água escorria pelos meus olhos, misturando visão e sensação. Não dava mais para separar o que eu via do que eu sentia. E, pela primeira vez em muito tempo, isso não me assustou. A cidade desacelerou ao meu redor, como se eu tivesse saído do ritmo dela. Os carros continuavam passando, as pessoas seguiam correndo, mas tudo parecia distante — como um filme sem som.

E ali, no meio da chuva, algo estranho aconteceu: eu parei de procurar.

Felicidade, eu sempre pensei, era alguma coisa que vinha depois. Depois de resolver tudo, depois de entender tudo, depois de me tornar alguém melhor, mais pronto, mais completo. Sempre um destino. Sempre mais adiante. 

Mas a chuva não estava esperando nada. Ela simplesmente caía. Sem pedir licença, sem se explicar, sem prometer que faria sentido. E, talvez por isso, fez. Eu dei um passo. Depois outro. Sem rumo, sem pressa. Só andando, sentindo cada gota como se fosse uma resposta que eu nunca soube formular.

A água lavava tudo — não só a pele, mas o peso invisível que eu carregava sem perceber. As expectativas, as cobranças, as perguntas sem resposta. Tudo parecia escorrer junto, indo embora pelas ruas alagadas.

E então eu ri. Não foi um riso alto, nem bonito. Foi inesperado. Meio torto, meio livre. Um riso que não precisava de motivo — e talvez por isso fosse o mais verdadeiro de todos.

Naquele instante, entendi: felicidade não era algo que eu precisava alcançar. Era algo que acontecia quando eu parava de fugir.

A chuva continuava caindo, insistente, viva. E eu, ali no meio dela, finalmente não estava em outro lugar. Não estava no passado, nem no futuro. Eu estava ali, inteira. E, pela primeira vez, isso bastava.

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