29 outubro 2010

De malas prontas

                 Malas do lado de fora, o quarto vazio. Eu perdia tudo devagar. As estantes da parede à esquerda, onde ficava os meus livros, meio penduradas, meio caindo; as janelas com as marquinhas de caneta e canivete, cada qual uma história diferente. Se lembra do quadros que achei no fundo do guarda-roupa, quando pisei naquele quarto a primeira vez? Pois é, ainda estavam lá, quase novos em folha bem guardados. O chão, de piso bem frio, brilhava como no dia que foi limpo pela primeira vez. As paredes já estavam descascando pelo tempo de histórias que tinha para contar.


                  Já fazia um ano, mas parecia um mês, e agora, para sempre. Tinha tanta coisa que tinha medo de esquecer. Memórias, momentos. Meus escritos, na pasta vermelha embaixo da televisão; meus bichos de pelúcia, decorando as paredes com uma infância que não queria ser esquecida. Meu abajur em forma de Pikachu, que usava para ler de madrugada, quando não conseguia dormir, logo que cheguei ali. Toda minha infância, toda a minha história. Mas se tinha um lado bom de sair dali era que aquela era uma imensa casa pronta para uma nova história. E quanto a mim, uma imensa história pronta para uma nova casa. O que tinha naquelas malas era eu.

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