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20:57
29 outubro 2010
De malas prontas
Postado por -
Renata F.
Malas do lado de fora. O quarto, vazio. Eu perdia tudo aos poucos — ou talvez estivesse apenas aprendendo a deixar. As estantes na parede à esquerda, onde antes repousavam meus livros, agora apenas pendiam tortas, quase cedendo. As janelas ainda guardavam as marcas de caneta, vestígios de uma infância inquieta — cada risco, uma história. Lembra dos papéis esquecidos no fundo do guarda-roupa, quando entrei ali pela primeira vez? Já não estavam mais lá. E, ainda assim, foram eles que deram início a tudo. O chão, frio e brilhante, parecia intacto, como no dia em que foi limpo pela primeira vez. Já as paredes… essas carregavam o peso do tempo: manchadas, vivas, cheias de memórias que insistiam em permanecer.
Fazia um ano — embora parecesse um mês. E agora, de algum modo, parecia para sempre. Havia tanto que eu temia esquecer: momentos, detalhes, pedaços de mim. Meus escritos, guardados na pasta vermelha sob a televisão. Os bichos de pelúcia, ainda espalhados, resistindo ao tempo, como se recusassem o fim da infância. O abajur em forma de desejo animado, que iluminava minhas madrugadas insones.
Tudo aquilo era mais que um quarto. Era a minha história. Mas partir também carregava uma promessa. Havia, naquele adeus, o início silencioso de algo novo — uma vida inteira esperando para ser escrita em outro lugar. E, no fim, percebi: o que eu levava dentro daquelas malas… era eu.
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