02 maio 2026

Raízes

Ela tinha um nome simples, desses que passam despercebidos, mas dentro dela existiam mil outras meninas — cada uma vivendo uma vida diferente da que lhe coube. Entre o terraço e quintal de onde morava, com rachaduras no chão e ausências dentro de casa, ela inventava mundos onde não encontrava morada. Ali, não faltava nada.

Em um dia, era bailarina, girando descalça como se o vento fosse música. No outro, era médica, salvando vidas com mãos pequenas e sérias. Já quis ser de tudo um pouco — querendo escolher seus próprios caminhos. E, quando o silêncio da casa ficava pesado demais, ela fingia também ter uma família que ria alto, que a abraçava sem pressa, que ouvia o que ela tinha a dizer.


Ninguém ensinou aquilo a ela. Era instinto — um jeito de sobreviver sem endurecer. A realidade, no entanto, sempre a encontrava no fim do dia. O jantar simples, as paredes caladas e as ausências que não deveriam estar ali. E, por um instante, ela sentia tudo, mas nunca por tempo suficiente para deixar escapar. Para ela, fingir não era mentira — era esperança em forma de brincadeira. E talvez por isso nunca tenha gostado de brincar de boneca, como as outras meninas. Seria irrealista demais.

O tempo passou, como sempre passa, e a menina cresceu. As fantasias foram ficando mais silenciosas, mais escondidas, mas nunca foram embora. Ainda viviam nela, agora transformadas em algo diferente: vontade. Vontade de ser, de ter, de construir tudo aquilo que um dia ela só pôde imaginar. E, talvez, o mais bonito seja isso: aquela menina que brincava de ter outras vidas não estava fugindo da sua — estava, sem saber, ensaiando futuros.

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