10 maio 2026

Versões de mim

Existe uma verdade silenciosa sobre ser humano: ninguém conhece a nossa versão inteira. Somos feitos de camadas, e cada pessoa conhece apenas algumas delas. Há várias versões de nós que moram apenas nos olhos dos outros.

Há uma versão nossa que mora na lembrança da mãe — talvez mais frágil, talvez eternamente criança. Existe aquela que os amigos conhecem, feita de risadas altas, histórias repetidas e segredos divididos no meio da madrugada; ou aquela que gosta de ler livros, dançar e viajar, todos na mesma intensidade. Há também a versão do trabalho, mais firme, mais organizada, talvez mais cansada do que demonstra. Para alguém, somos abrigo. Para outro, saudade. Para alguns, apenas uma lembrança breve atravessando um capítulo qualquer da vida.

Tem quem conheça a nossa coragem, mas nunca tenha visto o medo que a antecede. Tem quem conheça nosso silêncio sem imaginar o barulho que existe dentro da gente. Alguns conheceram nossa versão mais leve, antes das dores. Outros chegaram justamente depois dos escombros e aprenderam a amar a pessoa que precisou se reconstruir.

É estranho pensar nisso: em quantas pessoas carregam um “eu” diferente dentro delas. Na memória de alguém, talvez sejamos aquela conversa que salvou um dia ruim. Em outra, talvez sejamos uma despedida mal explicada. Para alguns, fomos amor. Para outros, aprendizado. E, às vezes, sem perceber, nos tornamos vilões em histórias nas quais apenas tentávamos sobreviver.

A verdade é que ninguém nos vê por inteiro — e talvez nós mesmos também não. Porque estamos sempre mudando. A pessoa que fomos há cinco anos já não mora exatamente aqui. Ainda existem pedaços, hábitos, cicatrizes, mas algo mudou no jeito de olhar o mundo. Somos muitas versões coexistindo: a que mostramos, a que escondemos, a que os outros inventam sobre nós e aquela rara, silenciosa e quase secreta, que só aparece quando estamos sozinhos.

Talvez amadurecer seja fazer as pazes com isso. Entender que nunca teremos controle sobre quem somos nos olhos dos outros. Cada pessoa nos leva de um jeito, moldados pelo amor, pela ausência, pela convivência ou pela dor. No fim, talvez a pergunta não seja quantas versões de nós existem, mas qual delas somos quando ninguém está realmente olhando, porque, entre todas as versões que vivem por aí, existe uma que merece mais cuidado: a que temos diante do espelho.

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