09 maio 2026

Desalento

“— Tá tudo bem?
— Tá sim.”

A resposta é automática. Sai rápida, quase ensaiada, dessas que a gente aprende a dizer para evitar perguntas difíceis. Porque às vezes explicar o que dói cansa mais do que fingir que não dói.

“Tá sim” pode significar tanta coisa. 

Pode significar não quero falar sobre isso agora. Pode significar nem eu sei o que estou sentindo. Ou aquele silencioso e pesado não tá, mas vai passar... e eu sei que você não se importa e nem quer ouvir de verdade.

Há dias em que a gente se acostuma tanto a carregar o mundo nas costas que até esquece como pedir ajuda. Sorri no horário certo, responde no automático, continua funcionando — como quem confunde sobrevivência com força e ninguém percebe. Porque quem está afundando nem sempre grita. Às vezes, faz café, responde mensagens, trabalha, ri de alguma piada e ainda pergunta se os outros estão bem. Talvez o maior cansaço não seja a tristeza em si, mas o esforço de parecer inteiro quando se está desmoronando aos poucos.

Então, da próxima vez que alguém perguntar “tá tudo bem?”, eu vou continuar respondendo que sim, porque sei não vai adiantar dizer: “não muito hoje”. Porque sei que não quer ouvir de verdade, porque sei que vai falar "é besteira, bola pra frente". Ainda continuo procurando alguém que me mostre que existe alguém que fique, mesmo depois de saber todas as verdades.

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