às
17:07
17 agosto 2011
Agonia
Postado por -
Renata F.
Acordo, outra vez, com a sensação de um dia errado. O sol mal nasce — e já parece tarde demais. Há uma sombra antecipada em tudo, como se o dia tivesse desistido antes de começar. Tudo soa fora do lugar, desalinhado; nada encaixa, nada promete dar certo. Não sei como viver hoje. Ou melhor — talvez eu saiba. Hoje, eu não quero viver. Pergunto-me por que a vida insiste em me oferecer aquilo que não peço, aquilo que não quero. Sempre há um detalhe, um fato isolado, que retorna como ventania e revolve tudo outra vez. Se o passado não volta, por que continua tão presente, tão vívido, tão impossível de ignorar?
Saio à rua e me enrolo nos próprios passos. O asfalto quente sob os pés, o corpo cambaleante — sigo entre tropeços em buracos que talvez nem existam, desviando de pedras que só eu vejo. O caminho é vazio, sem direção. Onde está a sanidade? No meio da rua ou perdida junto com o resto de mim? Ontem — um nome simples para um dia em que escolhi viver. O céu nasceu azul, e isso bastou… ainda que me tenha custado tudo: o que a vida me deu, o que deixei escapar, o que carrego como culpa. Mas a verdade é que nunca quis, de fato, ser feliz. Quis apenas entender porque o céu muda de cor tão logo amanhece.
Foi quando os fatos deixaram de fazer sentido — de se encaixar, de se explicar — que comecei a temer por mim. Falo quando deveria silenciar, choro quando deveria sorrir, me entristeço quando tudo ao redor pede alegria. São devaneios sem resposta, perguntas sem linguagem. Já não importa quem passa, quem olha, quem espera algo de mim. O mundo, por um instante, parece girar ao meu redor — e eu me perco nesse movimento, incapaz de fixar os olhos em qualquer direção. Tudo é excesso: possibilidades demais, caminhos demais — e nenhum simples o suficiente para que eu escolha. Digo a mim mesma que posso mudar qualquer sentimento. Mas não é assim. Nunca foi. Não se apaga a agonia como se apaga a luz de um quarto. Não se desfaz o peso apenas porque se deseja leveza. E hoje… hoje não há tempo para isso. Estou ocupada demais tentando descobrir como não viver minha vida — ou, quem sabe, vivê-la em um único instante, rápido o bastante para que tudo desapareça antes que eu precise entender.
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