25 outubro 2011

Eufemismo

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A morte nos conhece;
a morte conhece tudo.
A morte nada concede;
a morte desobedece.

Da morte, nada conheço
da morte que já conheci.
O que a morte me concedeu,
nenhuma dor esqueceu...


          Temo falar do sofrimento — já me atravessou por inteiro e fez de mim seu refém. Permaneço, vítima quieta, no silêncio denso da dor, sem sentir nada além da impotência, nada além dessa angústia que insiste em ficar. Do estado em que me encontro — agora completo em sua infelicidade — deixo para trás, cada vez mais distante, aquilo que um dia fui. Talvez seja mais honesto dizer: perdeu-se. Deixou de existir. Há quanto tempo tudo mudou? Já não me respondo — e, mais do que isso, desaprendi a perguntar. Perguntas exigem respostas; e quando elas não vêm, resta apenas o peso de nunca serem ditas, a inquietação de um vazio sem nome. Acordada, sigo viva — mas não vivo. A vida passa como um reflexo involuntário: reage quando tocada, mas, na ausência de estímulo, permanece imóvel, suspensa, sem pulsar. Não cresce, não muda, não acontece. E assim, tão rápido quanto chega, também se vai — sem nunca, de fato, ter ficado.

14 outubro 2011

Para dizer alguém

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A distância, então, já não me engana. Aprendi, tarde, que ela não mede espaços — revela ausências. Já me perdi no tempo que insistia em guardar o que não voltaria; agora, espero apenas uma luz — não para me levar de volta, mas para me ensinar um novo caminho. Lá se vai a velha eu: apaixonada demais, desajustada nos próprios sonhos, ingênua ao ponto de acreditar que sentir bastava. Ela não errou — apenas sentiu sem medida, e pagou o preço de viver tão incerta. O novo alguém… ainda é cedo para dizer; mas sei que nasce, silencioso, entre os restos do que fui e o esboço do que posso ser. Já não carrega as mesmas ilusões, mas talvez traga algo mais raro: a coragem de recomeçar, mesmo sem saber.

Coisas do coração

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Não me lembro de, em algum dia, ter desejado reviver tudo aquilo. Na verdade, já não me vem quase nada à memória — nada do que um dia me diminuiu ou tentou me desfazer. Ainda assim, não abandonei o que o coração, em silêncio, me contou. Fui atrás dos versos mudos que deixei espalhados pela minha própria história — linhas tortas, sentimentos guardados, páginas que eu mesma evitei reler. Em cada uma delas, houve dor e um pouco de mim se perdendo. Mas também houve verdade. E é por isso que posso dizer, com sinceridade, que sorri. Sorri mesmo quando não era fácil, mesmo quando o peso parecia maior que o peito. E, mais do que isso, amei — amei com tudo que eu tinha, com tudo que eu era naquele momento. Talvez eu não queira lembrar de tudo, mas carrego comigo o que importou: a prova de que, mesmo em meio às ruínas, eu fui capaz de sentir — e ainda continuar.

Desejo proibido

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As flores murcharam no vaso;
a água, esquecida, amarelou no tempo.
Cada dia que passou foi lágrima contida,
foi dor escapando em silêncio, sem alento.

E ainda assim, ela permaneceu —
teimosa, presente, viva em cada canto.
Talvez fosse saudade, talvez fosse amor demais,
transbordando em vão, sem destino, sem pranto.

Não sei dizer se era ausência ou excesso,
se falta tua ou sobra de mim;
só sei que ficou — densa e inquieta —
como algo que nunca chegou ao fim.

Por uma flor, por um beijo qualquer,
eu ainda pediria um gesto teu:
um sopro, um cheiro, um leve desejo,
qualquer traço do amor que se perdeu.

Só uma forma — mínima que fosse —
de acalmar esse peito aflito e tardio;
porque entre o que ficou e o que partiu,
ainda ecoa, em mim, um amor vazio.

Ausências

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Minhas falas se perderam pelo meio do caminho, como se nunca tivessem encontrado lugar para existir. Era como ter uma poesia engasgada, uma cantoria nunca ouvida, uma risada que morreu antes de nascer. E, ainda assim, foi no fundo dos teus olhos que algo se revelou. Não encontrei minhas palavras, nem minha música, nem qualquer verso que pudesse me explicar. Encontrei meus sentimentos — aqueles que não foram ditos, não foram escutados, não foram vividos como deveriam. Era como se tudo o que faltou em mim tivesse se tornado visível ali, no teu olhar. E isso, de alguma forma, doeu mais do que o silêncio. Porque perceber é diferente de expressar; entender não apaga o que ficou guardado. Talvez eu tenha me calado cedo demais. Talvez tenha esperado demais. Ou talvez existam coisas que simplesmente não aprendemos a dizer a tempo. Hoje, o que me resta não é mais a tentativa de recuperar o que se perdeu, mas de aceitar que nem tudo precisa de palavras para ter existido — e que, ainda assim, há ausências que continuam pedindo voz dentro de nós.

Inteira

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           Vi pouco da vida e há ainda muito que não vivi. Muito deixei pra trás, muito não fui atrás. Muita coisa deixei para trás; de outras, sequer me aproximei. Não fui por medo, talvez de me perder. Ainda assim, nunca deixei de enfrentar. Mas o pouco que vivi não foi o que me fez querer mais, nem o que senti me empurrou, necessariamente, em busca de outros sentimentos. O que houve foi presença. Em cada lugar por onde passei, estive inteira — por escolha. Nem sempre sei interpretar o que sinto, e fugir nunca foi minha forma de lidar com o mundo. Prefiro ficar, atravessar, tentar compreender. Busquei viver o agora como ele é, com suas imperfeições, com seus excessos e suas pausas. No meio dos outros, muitas vezes encontrei o vazio — mas, ainda assim, no pouco que vi, vi muito.

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E quem eu quero fica só no pensamento; no mais divino sopro do vento, no mais belo dos poemas, no mais suave e adocicado amor de veraneio.

11 outubro 2011

Sabor de uva

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Um pouco mais de água e amor,
já que não posso ter pão e vinho;
levarei comigo o calor do teu corpo,
o peso do teu abraço,
o sabor de uva
e o gosto de amor.

Levarei também o que não tem nome:
o intervalo entre uma palavra e outra,
o teu silêncio que sabia falar,
a forma como o tempo ficava quieto quando estavas perto.

Não peço muito ao mundo —
só que me deixe guardar o que já foi,
o que não volta,
o que ainda aquece mesmo de longe.

E se a sede voltar,
e o pão faltar outra vez,
ainda terei isso:
a memória do teu calor como último vinho,
como primeiro amor.

09 outubro 2011

Qual a sua palavra?

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Não existe isso de definição. Nenhuma palavra é forte o suficiente para um ser humano; pelo menos, não apenas uma. Talvez nem mesmo um conjunto delas, porque somos aquilo que se perde nos significados.
Palavra por palavra, sou mais "nenhuma"; não por ausência, mas por abertura. Porque “nenhuma” permite tudo: permite ser alguém, qualquer alguém, ou até mesmo alguém que ainda não foi inventado. É uma palavra que não prende; ela apenas deixa espaço.
Palavra por palavra, escolho também a "insuficiente", não como derrota, mas como reconhecimento - diz o que tem que dizer, sem deixar de não dizer. 
Palavra por palavra, sou daquelas que escolhem o "não" para muitas coisas; não para mim mesma, não para a injustiça interior, não para infelicidade, não também para a falta de todas essas coisas, pois aí ninguém existiria. 
Palavra por palavra, gosto da "imaginação", um substantivo simples, mas complexo, que mostra como as coisas querem ser sem deixar de realmente serem. 
Palavra por palavra, a "verdade" seria incompleta, pois existem traços que nem mesmo a verdade conhece. 
Palavra por palavra, existe aquela tal "perfeição", que nem ela mesma conhece tal imperfeição; talvez, a palavra mais feia do dicionário. 
Palavra por palavra, tem aquelas das quais todos gostam: "bonito", "simples", "amigo", "amor" e tantas outras mais, mas que todos nem mesmo sabem conjugar (e julgar) o verbo "conhecer". 
Palavra por palavra, existem milhões no mundo. Dicionário foi feito para isso. Mas o ponto alto da vida não é se definir. 
É traduzir-se e ser traduzido.

Velho e antigo

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Aquele frio no estômago — ainda sinto. O arrepio que percorre a espinha, o coração nas mãos quando o telefone toca; e o mesmo coração, descompassado, ao ver o nome acender na tela — tão confuso e tão bom — ainda sinto. Ouvir a música que ele canta baixinho, meio desafinado, ao pé do ouvido, e trazê-lo à memória, vivo, por um instante inteiro. Sentir um perfume qualquer e, de repente, reconhecer: é o dele — ainda sinto. Quando me envolve em seu abraço, como um manto, é como se o mundo coubesse ali. O abraço firme, quase infinito. O sorriso levemente torto — imperfeito, e por isso mesmo o mais bonito — aquele que ilumina, que contagia, que faz da simplicidade um lugar inteiro. Simples é o seu toque. Simples é também a forma como ele volta ao meu pensamento, sem esforço, sem aviso. E mais que o frio no estômago, há um torpor suave, um sorriso inevitável que nasce nos meus lábios… ao vê-lo. Só ao vê-lo. Ainda sinto — como no primeiro instante em que algo novo e diferente floresceu em mim. Um novo bom. Um novo que transformou tantas coisas e continua transformando, a cada hora, a cada dia. Um novo que amo hoje como se fosse antigo, como se sempre tivesse sido meu — mas que jamais se desgastou, jamais se perdeu no tempo. E não vai se perder. Porque há sentimentos que nascem raros — e, justamente por isso, nunca deixam de ser extraordinários.
 

(Re)inventando © 2010

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