15 março 2026

Gritos que ninguém escuta

                  A solidão nos enfeita como nenhum outro acessório. Uma companhia, por vezes, infinita; outras vezes, momentânea. Mas nesse pouco tempo que já vivi, ela tem sido constante. A única coisa que nunca me abandonou ao longo dos anos. 
                  A verdade é que acho que nasci para ser só. Para começar e finalizar minha existência nesse mundo da mesma maneira pela qual passei pela vida: sem fazer diferença na vida de ninguém. Confesso que gostaria de ter alguém que sentisse minha falta, além de mim mesma. Alguém que tirasse do meu peito a sensação de peso morto que carrego. Não importa que tipo de pessoa seja - amigo, amor ou família. Muitos já passaram perto e carrego com muito amor e carinho junto comigo, apesar de nunca saber me expressar tão bem sobre isso quanto eu gostaria. Culpa dos meus defeitos, os quais eu não consigo mudar.
                  Mas quando se vive tanto tempo sem saber o que é amor, muitas ideias passam pela cabeça. Será que eu sei amar? Será se eu valho ser amada? Qual o meu propósito nesse mundo? Confesso que nunca me senti tão perdida na vida quanto nesse momento. Eu queria saber ser feliz, tanto quanto os outros. Mas acho que a felicidade não gosta muito de mim. 
                  Às vezes penso que talvez eu apenas tenha aprendido a existir em silêncio. Como uma dessas presenças que passam pela vida dos outros de forma leve demais para deixar marcas. Não porque eu não sinta profundamente, mas porque tudo em mim parece sempre chegar tarde ou sair cedo demais.
                  Há dias em que observo as pessoas ao meu redor rindo, amando, construindo histórias, e me pergunto em qual momento do caminho eu me perdi. Em que curva da vida deixei para trás a possibilidade de ser parte de algo maior do que eu mesma. Talvez eu tenha me acostumado tanto com a solidão que ela já não é mais apenas uma companhia - é quase uma extensão de quem eu sou.
                  Ainda assim, existe dentro de mim uma pequena esperança, silenciosa e tímida, que insiste em não morrer. Uma esperança de que, em algum lugar, exista alguém capaz de enxergar além dos meus silêncios. Alguém que compreenda que, mesmo sem saber demonstrar, meu coração sempre esteve cheio de sentimentos.
                  Porque, no fundo, apesar de todas as dúvidas que me atravessam, eu ainda quero acreditar que ninguém nasce destinado a caminhar sozinho para sempre. Talvez eu só ainda não tenha encontrado o lugar onde minha existência faça sentido. Ou a pessoa que veja em mim algo que eu mesma ainda não consegui enxergar.
                  E quem sabe, quando esse dia chegar, a solidão que hoje me veste como um acessório deixe de ser meu abrigo para finalmente se tornar apenas uma lembrança do caminho que percorri até aprender que também posso ser amada.

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