às
14:23
05 março 2026
Pássaro de papel
Postado por -
Renata F.
Tantas feridas abertas, desoladas sobre a superfície de um coração em ruínas. Não há como descrever aquilo que só chora dentro de mim. Uma dor, uma falta. Essas são as ruínas de um ser que não entende a si mesmo nem mais o mundo ao seu redor. Eu continuo perguntando "por quê?", mas a verdade é que eu não deveria mais questionar, apenas entender que eu sou assim. Sempre serei assim.
Difícil.
Sensível.
Individualista.
Palavras que pesam sobre mim. Uma pessoa que ninguém quer por perto. Outros pesam sobre mim também e eu apenas termino de afundar.
A vida nunca me incomodou tanto quanto nos últimos trinta anos; sinto cansaço constantemente: cansaço da tristeza e das feridas que me abraçam todos os dias, cansaço de mim, de ser quem eu sou. Antes mesmo que a idade chegue.
Mesmo que por um instante, gostaria de sentir que eu sou outra pessoa, que é acolhida por um algum alguém sem se sentir deslocada. Uma pessoa que não é um incômodo, não causa dor, não é difícil. Uma pessoa que é como um pássaro, feito de papel, que passeia livre pelos ventos, buscando seu destino sem atrapalhar um outro alguém e sem esquecer de si.
Mas talvez o mais difícil de carregar não sejam as feridas e sim o silêncio que cresce ao redor delas. Um silêncio pesado, que se instala entre mim e o resto do mundo, como um vidro invisível que me separa de tudo aquilo que parece simples para os outros.
Às vezes penso que talvez esse seja meu maior erro: sentir demais.
Sentir quando ninguém percebe.
Sentir quando ninguém pergunta.
Sentir quando ninguém fica.
E assim sigo, tentando juntar os pedaços de algo que já não sei exatamente o que é. Talvez um sonho, talvez uma esperança antiga, dessas que a gente guarda dentro do peito sem perceber que o tempo vai desgastando suas bordas.
Ainda assim, em algum lugar muito quieto dentro de mim, existe algo que resiste. Algo pequeno, quase imperceptível, que se recusa a desaparecer por completo. Uma espécie de sussurro que diz que talvez eu não seja apenas essas ruínas.
Talvez eu seja também o silêncio que sobrevive depois da tempestade.
Talvez eu seja esse pássaro de papel que ainda não aprendeu a voar - não porque os ventos não existam, mas porque ainda não descobri como abrir minhas próprias asas.
E quem sabe, um dia, quando o peso do mundo não parecer tão grande, eu consiga me erguer um pouco acima dessas ruínas. Nem que seja por um instante. Nem que seja apenas para descobrir que, mesmo feita de papel, ainda posso tocar o céu sem me rasgar em pedaços.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 recados:
Postar um comentário