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21:37
09 novembro 2010
Fantasmas
Postado por -
Renata F.
Sabe qual a sensação de estar sozinha em casa? Vazia.
Sem companhia, meio perdida — só você e a própria alma, cercada por fantasmas. É assustador mesmo assim: eles estão por toda parte. Ainda que invisíveis, fazem-se sentir — sussurram canções sombrias, sopram ventos frios, percorrem o ar como presságios. Assombram o dia, invadem a noite, alimentam-se do medo como se fosse abrigo. E, num instante quase mágico, desaparecem ao menor sinal de um coração vivo por perto.
Eu já contei alguns dos meus. Cheguei a, no mínimo, sessenta. Um para cada dia dos dois intermináveis meses de solidão. Um para atravessar cada dia de saudade — ou para que ela me atravessasse. E não há como apressar o tempo; ele é teimoso, insiste em seguir seu próprio ritmo, indiferente ao que pesa dentro de mim.
Lá fora, os ventos também se apressam. Passam pela minha porta repetidas vezes, sempre no mesmo compasso inquieto. Talvez seja tolice notar isso no silêncio de uma casa, mas é a única coisa que ainda faz algum sentido perceber. Não faz sentido observar as árvores lá fora, dançando ou se escondendo umas das outras. Não faz sentido buscar companhia na televisão. Os livros já não acolhem como antes, e os espelhos — esses ferem — porque não refletem mais duas imagens, apenas uma: isolada, carregada de solidão, tristeza e pensamentos que não cessam.
O telefone toca, perdido no vazio, e o eco incomoda mais do que o silêncio. Nada disso é real o bastante. Nada disso protege como a presença de alguém ao lado, segurando a sua mão, dissipando o medo.
E a saudade, quando aperta, não hesita: escorre em lágrimas no meio do silêncio — e se mistura aos fantasmas que agora habitam o meu próprio coração.
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