26 setembro 2016

Eu

0recados
Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. –
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...

(Fernando Pessoa)

20 setembro 2016

Deserto

1 recados
                    No silêncio da noite, percebo-me pensando no quanto é difícil ser solitária. Não sozinha - bem longe disso -, pois sei estar cercada de pessoas maravilhosas; tampouco desacompanhada, já que ainda guardo alguns bons amigos. É apenas a solidão que me habita: estar só por dentro, um tanto desorientada.
                 É uma sensação estranha a de não se encontrar na presença de outras pessoas, que não querem outra coisa senão fazer companhia à solidão da nossa própria presença. É desconcertante sentir-se vulnerável diante de quem tenta te desvendar, quando, na verdade, você mesma ainda não sabe como se encontrar no meio desse pátio escuro e frio que é a solidão. 
                    Às vezes a alma chega a doer. E o que mais me assusta é perceber que essa sensação pode permanecer - como se fosse uma sombra que me acompanha pela vida. Apavora-me também essa impressão constante de estar sendo perseguida por algo que não sei nomear, mas que insiste em caminhar ao meu lado. Expor essa sensação, então, parece ainda pior. É como dançar: todos estão ali para te ver, mas poucos realmente estão ali contigo, dispostos a compreender as estranhezas do teu ritmo. E antes mesmo que eu descubra se gosto dessa dança ou se a rejeito, acabo despertando para a única vida que pulsa dentro de mim: a solidão.

08 setembro 2016

Ainda amor

0recados

Eu já não sou a mesma pessoa de alguns anos atrás. O amor tomou conta de mim e fez do meu corpo a sua morada. Cada nervo meu parece queimar ao sentir esse sentimento - tão puro e tão verdadeiro - correndo pelas minhas veias. Foi um amor que chegou simples, quase silencioso, como quem não pede licença, mas encontra um lugar para ficar.

E ficou.

Durante muito tempo ele me fez feliz. Abraçou-me de um jeito inteiro, tomou minha vida e minha alma como se fossem dele também. Eu vivi dentro desse amor como quem encontra abrigo em meio à tempestade. Tudo parecia mais vivo, mais intenso, mais cheio de sentido. O problema é que ele ainda vive em mim.

A diferença é que agora já não posso mais dividi-lo. Agora sigo por conta própria, com a alma e o coração partidos, tentando esquecer alguém que, no fundo, eu não quero esquecer. Há algo de profundamente cruel em ter que ensinar o próprio coração a soltar aquilo que ele ainda insiste em segurar.

Acho que essas foram - e talvez continuem sendo - as duas coisas mais difíceis que já precisei fazer na vida: deixá-lo ir e aprender a deixar de amá-lo. Porque ir embora, às vezes, é um ato necessário.

Mas deixar de amar…

é um trabalho lento da alma, porque algumas pessoas nunca vão realmente embora de nós - mesmo depois de partirem.

0recados

"Eu realmente acredito que, embora o amor possa ferir, ele também seja capaz de curar".

Um Porto Seguro

Dia nublado

0recados
Mais uma manhã nasce lá fora, mas eu não encontro coragem para levantar junto com ela. O dia começa devagar, trazendo uma luz tímida que mal atravessa as nuvens pesadas. Minha mente também amanheceu assim: cinza, nublada, ainda atordoada pelos pensamentos difíceis que ficaram da noite anterior. Quando olho pela janela, percebo que o céu parece refletir exatamente o que existe dentro de mim - um sol escondido, tentando existir por trás das nuvens.

Hoje eu acordei com vontade de esquecer tudo e manter minha mente fora do ar o dia inteiro. Como se fosse possível pausar a própria existência. Pego, então, um livro que estava jogado na minha mesa, começado, mas ainda não finalizado, para desfrutar das palavras e da história que ali se encontram. Abro-o com cuidado, quase como quem abre uma porta secreta. Dentro dele existe uma história que não é minha - e talvez seja justamente por isso que me chama tanto.


Só por um momento, leio para habitar, ainda que por um instante, a vida de alguém que não sou eu. Ali, entre as páginas, as dores parecem mais distantes. As feridas deixam de pulsar com tanta força. Era ali dentro daquela vida que eu queria estar vivendo a minha, sendo outra pessoa que não mais eu, vivendo histórias diferentes das minhas, conhecendo lugares distintos e sentindo outros destinos. Percorrer histórias que não carregam o peso das minhas.

Uma página em branco.
Um personagem novo.



Daí então, começa a chover lá fora. 
 

(Re)inventando © 2010

Blogger Templates by Splashy Templates