Mais uma manhã nasce lá fora, mas eu não encontro coragem para levantar junto com ela. O dia começa devagar, trazendo uma luz tímida que mal atravessa as nuvens pesadas. Minha mente também amanheceu assim: cinza, nublada, ainda atordoada pelos pensamentos difíceis que ficaram da noite anterior. Quando olho pela janela, percebo que o céu parece refletir exatamente o que existe dentro de mim - um sol escondido, tentando existir por trás das nuvens.
Hoje eu acordei com vontade de esquecer tudo e manter minha mente fora do ar o dia inteiro. Como se fosse possível pausar a própria existência. Pego, então, um livro que estava jogado na minha mesa, começado, mas ainda não finalizado, para desfrutar das palavras e da história que ali se encontram. Abro-o com cuidado, quase como quem abre uma porta secreta. Dentro dele existe uma história que não é minha - e talvez seja justamente por isso que me chama tanto.
Só por um momento, leio para habitar, ainda que por um instante, a vida de alguém que não sou eu. Ali, entre as páginas, as dores parecem mais distantes. As feridas deixam de pulsar com tanta força. Era ali dentro daquela vida que eu queria estar vivendo a minha, sendo outra pessoa que não mais eu, vivendo histórias diferentes das minhas, conhecendo lugares distintos e sentindo outros destinos. Percorrer histórias que não carregam o peso das minhas.
Uma página em branco.
Um personagem novo.
Daí então, começa a chover lá fora.