29 agosto 2016

Longe da escuridão

0recados
                A escuridão faz diferentes reações nas pessoas. Algumas se desesperam diante dela. Não sabem o que fazer nem por onde ir. A esperança facilmente vai embora e o coração é um montante puro de medo e terror. É como o fim do mundo, por assim dizer. Para outras, a escuridão é apenas diversão, somente mais uma coisa a ser enfrentada. Covardes versus corajosos. Eu não sou nenhum dos dois. Para mim, a escuridão é uma mistura de sentimentos vivos que se materializava através de lágrimas. Por isso, a minha visão era um pouco desfocada e mesmo quando o sol nascia, eu só via e vivia escuridão. Mas o que eu posso dizer sobre sentimentos quando os mesmos me enganaram da forma mais mesquinha possível? Eu vi dor e felicidade em uma mesma sentença. Vi também o porquê de as estrelas só aparecerem na escuridão da noite; é porque até a Lua tinha companhia.
                   Mas foi no calor de um momento intenso de escuridão que fiz perceber a mim mesma dentro de um grupo de pessoas que simplesmente existiram na minha vida. Simplesmente porque se importaram. Por mais que a solidão faça parte de mim hoje, não sei expressar em palavras o quanto pude me sentir abraçada por poucas pessoas, mas essenciais, em tão curto espaço de tempo. Eu me vi abraçada, afagada e enlaçada nos braços de tanta gente, que tomaram conta de mim e das minhas dores por motivo nenhum em especial, apenas porque eu precisava, e levaram de mim meus pensamentos hostis, abrindo caminho para me permitir ser feliz. E a força desse carinho me deu força para encontrar uma luz: amigos. Foi no calor de um momento intenso que encontrei o calor da amizade. 
              Eu sabia, então, que nada mais me lembraria o medo da solidão que eu senti há algum tempo atrás, pois foi quando essas pessoas começaram a fazer e acontecer em minha vida. A mesma vida que antes era vazia, onde apenas eu mesma me fazia companhia, agora era cheia de esperança, apesar de a minha vida ainda deturpar um pouco as coisas que sinto e bagunçar bastante a minha mente. Mas de fato eu sabia ser esse justamente o motivo pelo qual esse medo da solidão nunca mais retornaria para mim. Elas simplesmente apareceram e nunca mais a minha vida foi a mesma, porque cada uma delas me fez sentir, o que era uma coisa totalmente nova para mim dentro da minha solidão. Fizeram-me sentir medo de perdê-las.

Imagem de moon, black and white, and hands

Dedicado especialmente à seis pessoas que me ressurgiram das sombras: R, R, J, V, V, A.

Silêncio

0recados
É uma sensação estranha perceber quantos sons existem ao redor - sons que antes sequer eram notados, muito menos escutados de verdade. Agora, porém, eles se impõem quase como barulhos. Já não carregam o mesmo significado de antes. Ganharam um tom diferente, mais vazio - mais próximo do nada. Só então me percebo cercada por um silêncio ensurdecedor. Um silêncio tão grande que já não encontro harmonia nem mesmo na música que, um dia, foi o conforto do meu coração. Esses sons ásperos se estendem ao longo de todo o dia, como se ocupassem cada pequeno espaço do tempo, e só cessam quando meus olhos finalmente se rendem ao cansaço merecido.


Incomoda-me, então, o barulho de uma porta se abrindo - porque ela já não anuncia a chegada de alguém que eu desejava perto de mim; incomoda-me o barulho de uma mensagem ou ligação no celular - porque eu já sei que não vem de alguém que, mesmo pertencendo ao passado, ainda parecia tão presente; incomoda-me o eco de uma música antiga - aquela que um dia foi trilha de uma história inteira; incomoda-me até o som silencioso das lágrimas caindo sobre a mesa de vidro, escorrendo pelo rosto cansado. Incomoda-me até o mais simples dos barulhos, e também o mais intenso e o mais sufocante de todos - o barulho do silêncio. Esse que surge quando todos os outros sons vão embora. Sem dúvida, o mais difícil de escutar - e justamente o que tenho escutado, todos os dias, desde então.

23 agosto 2016

Barulho de madrugada

0recados
A lua gira lentamente em torno de um quarto sem esperança. Uma noite longa se anuncia, cheia de pensamentos que nascem no silêncio e se espalham pela madrugada como gotas invisíveis. Lá fora, alguns carros solitários passam na rua à uma da manhã; passam rápidos, como se carregassem consigo as angústias daqueles que, em algum momento, despejaram suas mágoas em um poço vazio e agora apenas esperam que, um dia, o sol volte a nascer em suas janelas. Tudo parece normal. As luzes dos postes iluminam a rua, rodeados pelos voos sonolentos dos mosquitos; as nuvens pesadas pairando no céu, tentando adormecer com a música trazida pelos ventos; as árvores balançam devagar, seus galhos se movendo em um ritmo inquietante, vivo, quase sussurrado... O mundo está parado. Mas é nessas horas que o coração acorda. Há um ruído insistente que atravessa meus pensamentos, repetindo-se como um eco difícil de silenciar: saudade e amor. Sentimentos que martelam o peito, antes inchado de palavras, quase se afogando em águas calmas, porém profundas. Hoje, essas mesmas águas permanecem transbordando, agitadas... com uma inquietação que parece não querer descanso. As palavras vêm à mente, tentando formar algum sentido e encontrar um significado. Não há para onde fugir, a cabeça sempre volta para o mesmo lugar. E ali permanece — silenciosa, inquieta — esperando que algo, enfim, faça sentido.

 

(Re)inventando © 2010

Blogger Templates by Splashy Templates