às
16:48
27 agosto 2013
Ensaio sobre a vida
0recados
Postado por -
Renata F.
Acordo; vivo; durmo. Sigo sem rumo nem direção, perdida em uma vida sem abrigo e em uma rua sem direção. Sigo forte, inconstante e incerta. Forte, inconstante e incerta. Até que amanheceu um dia em que o sol fechou os olhos para o mundo, como se tivesse se desencantado do céu. Foi então que percebi o problema.
O problema é existir. Cada passo, cada dia, cada nova circunstância repousa sobre meus ombros leves e já quebrados. E ainda assim eu sigo. Tudo encaixo, somo, incorporo - como já dizia Oswald de Andrade. Incorporo tudo, para sempre.
Faz tempo que procuro uma razão. Talvez porque seja próprio dos humanos procurarem uma. Procuramos razões para entender aquilo que nos inquieta, razões para explicar aquilo que nos move ou nos paralisa diante do mundo. Mas eu a procuro na simplicidade cruel de saber que a minha felicidade parece terminar ao final de cada dia. Existe em mim um mal que parece maior do que eu mesma: a necessidade de pertencimento, de sentir que se faz parte de algo. E quando isso falta, até o céu parece estranho.
A sensação é de vazio. Ela me mostra o quanto posso ser pequena diante de pensamentos frios, tristes, inconclusos - pensamentos que não encontram repouso. E ninguém aparece para contradizê-los. Ninguém surge para dizer que tudo isso talvez seja apenas um amontoado de ideias confusas, incompatíveis com a realidade.
Vazio.
Vazio é perceber que pessoas que eu pensava conhecer já não sei mais quem são.
Vazio é sentir a perda antes mesmo de entender o que exatamente foi perdido.
Vazio é o desapontamento silencioso, a sensação inútil de estar deslocada da própria história.
Vazio é não mais pertencer a um lugar que, um dia, pensei ser meu.
Ainda assim, não sou capaz de entender essa sensação. Posso apenas analisá-la, observá-la quase de fora, como quem contempla uma tempestade pela janela. E eu a reconheci num dia de angústia - um dia em que deveria haver pessoas me esperando. Nenhuma delas estava lá. E é a meia-noite que mais apavora. Quando estou só diante da escuridão infinita, percebo que ainda tenho um alicerce para me apoiar: o próprio choro.
E dói.
Dói muito.
Dói como uma alma esfaqueada, sangrando lentamente sobre um chão frio.
Dói como uma flor que morre em silêncio no meio de um jardim ainda vivo.
Dói como uma mente lúcida aprisionada em um corpo hostil.
O amor dói. A alma, antes tão límpida e tão branca, começa a se corroer aos poucos, perdendo-se em caminhos que antes pareciam claros. Até o sorriso dói, quando a mente derrama seus venenos por dentro. E há algo de podre no cheiro desse amor que insiste em permanecer, como se quisesse sobreviver ao tempo, prolongando-se por uma eternidade imperfeita.
E, assim, alguns amores simplesmente vão embora.
Alguns atravessam a porta para um último adeus.
E outros permanecem na memória - para jamais serem esquecidos.
Assinar:
Comentários (Atom)
